Rotos e esfarrapados

(Imagem: Lars aspas on...)



Independente de qual seja o desfecho para a crise institucional que vive o país, chama atenção a maneira corrosiva com que se agridem os polos ideológicos cultivados numa sociedade que tangencia o desequilíbrio. Há donos da verdade de todos os lados, inclusive – e sobretudo – acima da lei.

Irrigadas por esse fel, as redes sociais disseminam o que há de pior em piadas de mau gosto, notícias falsas e carregadas de veneno, destinadas a acirrar ainda mais os ânimos. Talvez fosse o caso de se pensar em recrutar novos governantes em meio a tanta gente que esbraveja Justiça, competência e Verdade. Como no futebol, onde, no Brasil, o número de técnicos se aproxima dos 200 milhões.

Mas o que assusta é a impiedade com que se flagela quem comete erros. Uma impiedade boboca, galhofeira e arrogante, que tenta esconder a própria essência, moldada no mesmíssimo barro de pouca liga de que são feitos também os que caem em desgraça e, flagrados no erro, são pegos pela Justiça.

Humanamente miseráveis somos todos nós que, por misericórdia do alto, podemos fazer o percurso de vida sem cometer determinados crimes. Mas nem por isso será outra a nossa essência, que também erra e pode ferir – até com muito mais profundidade – através de arma mais letal: a língua.

É útil lembrar aqui do fariseu da parábola, que agradecia a Deus por não ser "como o resto dos homens, ladrões, injustos", e nem como o publicano que, ao fundo do Templo, sequer ousava levantar os olhos, mas batia no peito pedindo piedade por se considerar um pecador.

Convenhamos: não anda faltando só Verdade e Justiça, mas um tanto da boa, rara e salutar humildade.

Comentários

Célia Rangel disse…
Excelente reflexão para o momento, Eduardo!
"Rotos, Esfarrapados e Desavergonhados"...
Abraço.
Claude Bloc disse…
Sempre excelente argumentação

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