A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, há 30 anos, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negavam ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, permanece inalterada a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca. Os exemplos são recorrentes, e vão desde profissionais da saúde que negam atendimento em unidades públicas, a policiais que se entrincheiram nos quartéis e delegacias, em protesto contra o não pagamento de seus salários e as péssimas condições de trabalho.

Parece inútil implorar socorro diante de vidas humanas que se esvaem. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir. Há outras providências a tomar – estas, sim, urgentes. Atendidos os próprios interesses, há que considerar os do partido pelo qual se foi eleito. E há também os companheiros que emprestaram seu apoio, os compromissos confessáveis e inconfessáveis assumidos com o restrito círculo do Poder...

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza a solidariedade de um prédio inteiro. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. A cartilha de quem governa, segundo escreveu certa vez um ex-presidente, é entender povo como massa que se manipula de acordo com os interesses maiores do Estado.

Portanto, pessoa não é gente, é conjunto. É povo. E povo é massa, dócil e crédula.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

(Repost - Editado)

Comentários

Marcos disse…
Mais uma verdade e, claro não chegam aos ouvidos surdos dos administradores e politicos. Apenas ouvem como ouvido de tuberculoso,seus próprios anceios. E assim vai..
Parabéns, excelente texto, como sempre
Célia Rangel disse…
Há um desgaste mental imenso em sempre ouvir, ver e vivenciarmos as mesmices governamentais. Com eleição, com impeachment, com impopularidade nada disso tudo resolve. Eles continuam... E, há um clã enorme que herdam mando e poder. Se, seu sobrenome não pertence ao clã, você está fora do alcance da sobrevivência. Avacalhação total. Eis a questão.
Abraço.

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