Como disse?

(Imagem: Google)


Nascido por volta do ano de 560 em Sevilha, cidade onde foi bispo por mais de três décadas, Santo Isidoro escreveu Etimologias – obra sobre a linguagem e que retrata o mundo de sua época.

Para Jean Lauand, professor titular na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na Idade Média o autor costumava analisar a etimologia das principais palavras envolvidas na discussão de uma questão qualquer. Isto, por estar convencido de que a denominação da palavra “podia conter em si informações sobre a própria realidade referida”.

Ainda segundo Lauand, experiências densas que vivemos não possuem brilho duradouro na consciência reflexiva – razão pela qual o próprio Santo Isidoro valia-se de velha constatação dos gregos para lembrar que o homem é um ser que esquece.

Parte dessas experiências, no entanto, vai parar na linguagem. Daí a afirmação do titular da FEUSP de que, não raro, a análise etimológica ajuda a tarefa humana de filosofar. “Ao tratar filosoficamente a gratidão”, ele diz citando apenas um caso, “é importante considerar que quando dizemos ‘obrigado!’ estamos reconhecendo que a gratidão impõe um vínculo, uma obrigação (ob-ligação) de retribuição”.

Não há mais tanta esperança de que protestos e lamentos em defesa da maltratada língua portuguesa – e, de resto, da cultura em geral – possam resultar em providências saneadoras. Parece mais fácil maquiar deficiências, por exemplo, com o argumento de que a língua é dinâmica.

O filósofo e cientista político Leonidas Donskis escreveu que sua experiência com o que chamou ‘inflação de conceitos’ atingiu o auge quando deparou artigos na imprensa americana, descrevendo o ‘holocausto’ de perus às vésperas do feriado de Ação de Graças. Para ele, aquele não era um simples exemplo de uso irresponsável ou impensado de uma palavra, mas desrespeito por conceitos e pela linguagem, que apenas temporariamente encobre ‘o desrespeito pelos outros’.

É o que sugere o caso de quem transfere para seu totó de estimação a condição de filho, neto e até sobrinho. Sempre ficará a suspeita de que o mau uso da palavra para ‘humanizar’ o (ir)racional (= razãofaculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar ideias universais; raciocínio, juízo) nada mais é senão uma aparente e irreversível degradação de valores – fruto do ‘self como umbigo do mundo’ indo desaguar no avassalador desrespeito pelos nossos iguais. 

Comentários

Célia Rangel disse…
Povo sem memória...
Creio ser o nosso HD repleto de inúmeras desumanizações que preferimos realmente deletar que inserir, salvar e/ou imprimir... Vamos às nuvens armazenar tudo, sob o comando umbilical, de tantas mazelas, que já não encontram mais espaço no disco... Desfragmentemos, ou, a loucura se aproxima.
Abraço.

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