quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mundinho


(Imagem: Pixabay)

Vista do alto quando na sombra da noite, a Terra é pontilhada de luzes. São como pegadas humanas na escuridão, lanternas voltadas ao infinito à procura de respostas que acalmem nossa inquietação com marcas profundas da pegada antrópica, que o dia revela.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas dedicou-se a discussões sobre a população mundial, com ênfase na influência do futuro demográfico e suas consequências. Foram necessários 200 mil anos para que chegássemos a 1 bilhão de habitantes no planeta, mas levamos apenas 14 anos para saltarmos de 3 para 4 bilhões; 13 anos para 5 bilhões; 12 anos para 6 bilhões, e o mesmo tempo para crescermos em mais 1 bilhão.

A ONU considera que um crescimento populacional em taxa média faça com que desembarquemos em 2100 com 11 bilhões de habitantes. Na melhor hipótese, chegaremos lá com menos de 7 bilhões – número próximo do atual, que já impulsiona nossa pegada para 64% além da biocapacidade do planeta.

Cidadão do futuro e adaptando gente e Terra à dimensão de seus cinco anos, Gabriel ditou ao pai suas impressões ante um desenho infantil do planeta. Para ele, que iniciou seu depoimento com um compenetrado “era uma vez”, o mundinho era muito feliz, colorido e respeitado pelos homenzinhos. Nele tinha árvores, grama, flores, gaivotas e terra. Era também cheio de pessoas que gostavam de brincar e que não precisavam ter medo do mundinho, porque ele era só um planeta e protegia a todos.

De Gabriel a um registro histórico: há 150 anos, quando remexia os escombros de Canudos, o médico das tropas invasoras, João Condé, deu com um volume encadernado de 628 páginas. Na última página de Prédicas, seu autor, Antônio Conselheiro, previa sua morte próxima: "Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós".

Espremidos entre um adeus em passado que se insinua futuro, e um futuro com sombras de desesperança, seguimos tentando preservar nossa teima, nossa arrogância e nosso individualismo suicida. Sem consciência das urgências ambientais, aliadas a políticas de resultados, talvez nos reste a misericórdia de Deus. De Quem, aliás, nossos representantes e líderes parecem não desejar tanta aproximação assim, haja vista a lembrança urgente da laicidade do Estado, verberada em discursos exaltados, ante a recente polêmica sobre o ensino religioso nas escolas públicas.

Pode ser que Gabriel ainda persista por algum tempo imaginando um mundo de pessoas que gostam de brincar em um planeta que protege a todos. Parece certo, no entanto, que os sonhos do futuro não despertam em nós mais que um sorriso breve com traços de compaixão. Ébrios de própria estupidez, por enquanto o que temos feito melhor é dar de ombros, remetendo aos que vem chegando a conta a ser paga por nossos crimes ambientais.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Como é maravilhoso que ainda existam "Gabrieis e Isabeles", que do alto de seus cinco anos, vejam o mundo no "era uma vez"... Penso muito no "mundinho" que herdarão... Que a Boa Mãe os oriente na transformação em um mundo onde não impere o medo, a injustiça e a maldade humana!
Abraço.