domingo, 13 de agosto de 2017

O Pum

(Imagem: BETLR)


Com os narizes tapados para não respirar os odores fétidos exalados pelo noticiário, o país vive pequena pausa para celebrar os Pais, apesar das cores de melodrama oportunista com as quais a tevê se apropria da data.

Vale, então, pensar e repensar a paternidade – essa escalada de riscos capaz de ser largamente recompensada em bênçãos, amor e sorrisos suficientes para mitigar dores e lágrimas resultantes do cansaço nas retomadas do caminho.

Filhos são únicos, ainda que dois, cinco, dez ou mais. E netos também. Não pode haver político, prestação, taxa de juros ou assembleia de condomínio com poder destruidor capaz de tirar o brilho de dúvidas, descobertas, surpresas e sonhos de quem é futuro. Como as que se revelam, por exemplo, nos diálogos com Gabriel, que, em seus iminentes cinco anos de idade, é generosíssimo no trato social e nas reverências que o levam quase a tocar o chão com a testa.

Sagaz observador, anunciou, dia desses, que o carro do pai “tem ponta (antena) igual a outros carros”. E a meio caminho de casa, retornando da creche, freou subitamente a bicicleta. “Parei aqui porque quero soltar um pum, que vai subir até lá no alto, no céu". Em seguida, voltou a pedalar física e filosoficamente: “O pum é invisível, o fantasma também. O saci na garrafa também é invisível”.

Nada pode resistir a esses heróis do amanhã, a quem, os de cabeça branca, devemos bênçãos e reverências pelas reservas de otimismo e esperança que carregam consigo.

Quanto aos que nos fazem tapar os narizes em desespero, a estes bem poderíamos destinar o mais alentado pum. 

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Delícia estar com o Gabriel! Há toda uma filosofia de vida que, na certa, reconstituiria nosso país. A sagacidade da criança é algo que muitos desprezam, mas não sabem o tesouro que estão abandonando...
Abraço