sábado, 19 de agosto de 2017

O feitiço pelo telefone


(Imagem: Pinterest)

Suponhamos uma sociedade organizada, em país onde a voz do cidadão seja ouvida e respeitada. Ali, para se desfazer do estoque de lançamentos encalhados, uma empresa recruta especialista em marketing e este, ansioso por mostrar serviço, arrebanha na fila dos desempregados um batalhão de vendedores.

Devidamente instruídos, esses valentes soldados saem em campo para caçar, de porta em porta, compradores para sua mercadoria. Batem à porta de uma residência pela manhã, mas não tendo aceita a oferta que apresentam, repetem-na à tarde em nova visita.

Achando que talvez não tivessem sido bastante claros, moradores reiteram a negativa. Indiferente a ela, a empresa novamente baterá às mesmas portas em outros tantos momentos do dia, insistindo em ofertas firmemente recusadas. E assim por meses a fio.

Avancemos ainda nesta suposição para alcançar uma autoridade do universo de legisladores, executores e fiscais dessa nobre atividade mercantil. Para se defender do oceano de reclamações dos cidadãos cotidianamente importunados – primeiro pelo toc-toc-toc, depois pelo esmurrar das portas de suas residências –, essa autoridade definirá a estratégia do suposto especialista em marketing como "um mal necessário". Para se livrar dela, caberá à população apenas ignorar a aporrinhação infernal de seus vendedores, até que a empresa se convença da inadequação da estratégia em prática.

E claro que, em realidade e curtíssimo prazo, tal situação custaria, quando nada, o emprego do vendedor, do tal 'especialista' em marketing e da autoridade, restando à empresa, como consequência, prejuízos financeiros acarretados por danos à sua imagem, além de indenizações por assédio aos cidadãos.

No Brasil, país onde a realidade supera em muito o imaginário, toda essa lógica, no entanto, talvez valesse apenas para abordagens onde vítima e algoz estivessem separados por uma porta ou por um botão de campainha. Quando a distância entre as partes é medida em quilômetros, livrando o chato de valentes e machadianas bengaladas de sua vítima (para supor o menos), as regras de mercado e de respeito ao cidadão desaparecem.

Essa é a realidade do telemarketing. A salvo dessa chatice, os figurões da República dão de ombros para esses e outros flagelos a que submetem seus eleitores. Até porque, legisladores – imagine-se! – usam o telemarketing para captar votos em campanhas eleitorais...

Pode demorar mais um pouquinho, mas esse feitiço vai se voltar contra os feiticeiros. A torcida é imensa. Não custa esperar.

domingo, 13 de agosto de 2017

O Pum

(Imagem: BETLR)


Com os narizes tapados para não respirar os odores fétidos exalados pelo noticiário, o país vive pequena pausa para celebrar os Pais, apesar das cores de melodrama oportunista com as quais a tevê se apropria da data.

Vale, então, pensar e repensar a paternidade – essa escalada de riscos capaz de ser largamente recompensada em bênçãos, amor e sorrisos suficientes para mitigar dores e lágrimas resultantes do cansaço nas retomadas do caminho.

Filhos são únicos, ainda que dois, cinco, dez ou mais. E netos também. Não pode haver político, prestação, taxa de juros ou assembleia de condomínio com poder destruidor capaz de tirar o brilho de dúvidas, descobertas, surpresas e sonhos de quem é futuro. Como as que se revelam, por exemplo, nos diálogos com Gabriel, que, em seus iminentes cinco anos de idade, é generosíssimo no trato social e nas reverências que o levam quase a tocar o chão com a testa.

Sagaz observador, anunciou, dia desses, que o carro do pai “tem ponta (antena) igual a outros carros”. E a meio caminho de casa, retornando da creche, freou subitamente a bicicleta. “Parei aqui porque quero soltar um pum, que vai subir até lá no alto, no céu". Em seguida, voltou a pedalar física e filosoficamente: “O pum é invisível, o fantasma também. O saci na garrafa também é invisível”.

Nada pode resistir a esses heróis do amanhã, a quem, os de cabeça branca, devemos bênçãos e reverências pelas reservas de otimismo e esperança que carregam consigo.

Quanto aos que nos fazem tapar os narizes em desespero, a estes bem poderíamos destinar o mais alentado pum.