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Mostrando postagens de Abril, 2017

Horizontes

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(Imagem: Pinterest)


Atingida pelo tsunami de 2004, uma pequena cidade japonesa proporcionou naquela ocasião uma cena curiosa: um sobrevivente da catástrofe, de olhos fixos na linha do horizonte sobre o mar, mantinha-se vigilante tendo ao lado, imóvel, um seu semelhante. Encharcados ambos, o primeiro achegou-se ainda mais do outro ante a aproximação do cinegrafista. Os dois personagens eram cães. O 'guardião' trazia no pescoço uma coleira e, por trás do focinho, um olhar de cão sem dono. A narração dava conta de que os animais seriam encaminhados a local apropriado, onde receberiam os cuidados necessários. Naquela mesma semana outro cão protagonizaria cena notável, desta vez no Brasil. Assassinado provavelmente por grupos de extermínio que a polícia paulista ainda investigava, Cabeludo, um morador de rua, teria aos pés de seu cadáver um cachorro que não apenas impediria que alguém se aproximasse, como tentaria reanimar o dono lambendo-lhe as pernas. O notável estreitamento no conví…

A baleia e o ciclista

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Eliza Gramlich)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, no longínquo ano de 1988, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negaram ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.
Três décadas depois, pouco mudou. Só a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca, é a mesma. Os exemplos são recorrentes, e o mais recente nos chega também pela tevê, que mostra o desespero dos familiares de uma paciente em crise, à qual foi negado atendimento em uma unidade pública de saúde de Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Motivo: os médicos estavam em greve pela falta do pagamento de seus salários.
Parece inútil implorar socorro diante de uma vida humana que se esvai. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os r…

Carochinha revisitada

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(Imagem: Pinterest)

Há mais de um século era lançado no Rio, pela Livraria Quaresma, o livro Contos da Carochinha – considerado o primeiro texto da literatura infantil escrito em português do Brasil, compilado e redigido pelo jornalista Alberto Figueiredo Pimentel.
No tempo da Inquisição, denominava-se carocha uma espécie de mitra extravagante que os condenados eram obrigados a ostentar, a caminho do suplício. A palavra chegou às salas de aula para identificar uma carapuça de papel, posta como castigo nos alunos que se comportavam mal. Além de outros significados pouco relevantes, carocha era também sinônimo de bruxa ou bruxaria e, na literatura, acabou se transformando em denominação de narrativa fantasiosa – uma mentira. O diminutivo do vocábulo – carochinha – foi dar em título do livro em questão.
Em outubro de 1930, a mesma editora lançou Histórias da Avosinha, obra com 370 páginas e 131 gravuras desenhadas por Julião Machado. Em uma das estórias, intitulada “O bom juiz”, o personage…

Bla bla bla

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(Imagem: Pinterest / Sainer)


É favor que não me façam ver sorrisos de cinismo e escárnio, nem ouvir discursos e declarações que sublinhem históricas necessidades e veteranas urgências nacionais. Não quero ouvir promessas rasas, às quais uma coreografia teatral tenta emprestar ênfase e credibilidade.
Cansei de ler frases feitas, com acusações e suspeitas sobre isso e aquilo, assim como afirmações que não se confirmam e desmentidos que se desmentem. Pressinto o adiamento reiterado de uma justiça que, anunciada, surge tímida, para sair de cena aos poucos, de fininho. À francesa, como se dizia.
Desnecessário que se reiterem monótonas e repugnantes notas de esclarecimento que não esclarecem, assim como a existência de prazos quase infinitos para a defesa do indefensável. Também não me interessa a repetição sonolenta da voz oficial, que transmite e oficializa a morosidade que escala o tempo como um bicho preguiça.
Por favor, parem de repetir que calúnia e difamação serão desmascaradas pela …