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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

O pescador

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(Imagem: BETLR)
A manhã de domingo estava perfeita. O pai relaxava do estresse na financeira lendo sobre automóveis, enquanto a mãe, aspirante a executiva de uma multinacional, fazia o mesmo tentando decifrar um velho caderno de receitas.
- Amor, o que é ovo póche?
- Ah, é uma beleza! Coincidência, pois estou lendo sobre ele agora. Se não custasse tão caro, a gente ia ter um.
- Do que é que você está falando? – estranhou a aprendiz de cozinha.
- Ué, do novo Porsche...
Tudo se esclareceu ao acertarem as dúvidas em torno do ovo pochê.
- Eu quero ir na casa da vovó...
A voz manhosa e fina vinha de um menino com cerca de quatro anos.
- Hoje não, outro dia a gente vai – respondeu o pai sem desviar os olhos da revista. Até que um dedinho indicador começou a passear sobre a página com a foto de um Lamborghini. Para chamar a atenção do pai, a pergunta veio logo:
- Que é isso?
- É um Lamborghini.
- Eu quero um.
O economista sorriu, aproximou a boca do ouvido da criança e disse-lhe num sussurro:
- Vai lá na …

Rebelião

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(Imagem: Pinterest Paul Kuczynski)


Quanto vale uma informação?
Muito, se você souber o que fazer com ela. Pouco adianta insistir em informar e alertar o sujeito que não 'sente' o calor de proximidade do perigo na pele ou – pior – no próprio bolso.
A proverbial sabedoria (que a todo custo se procura liquidar) ensinava, em tom de trocadilho gracioso, que em alguns casos o que abunda, prejudica. No caso da dengue, zika, chikungunya e outras mazelas, o excesso de informação escoa pelo ralo sem acrescentar mais qualquer benefício. Exatamente porque é excesso. Cansou, já deu. Sobretudo porque começam a aparecer sinais que evidenciam miséria tão cruel quanto as consequências do vírus: o humano cacoete de tentar tirar proveito mercadológico e político de uma situação que comove e preocupa a sociedade.
Duas líderes comunitárias conversavam durante uma viagem de ônibus, queixando-se do esforço enorme para enfrentar a displicência da administração pública e o desinteresse da população pelo…

A vez do escracho

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(Imagem: Pinterest/Sebastien Thibault)


A titular de uma secretaria da Prefeitura de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, publicou recentemente em rede social, segundo leio na imprensa, um texto onde recomenda que uma vítima da Síndrome de Guillain-Barré vá catar coquinho. A paciente mora na baixada fluminense e lá ficou internada por oito dias.
Não se trata de ato isolado, mas de tendência que se alastra e se generaliza – a do escracho, venha de onde vier. Querendo homenagear uma de suas apresentadoras do momento, a tevê mostrou dia desses um grupo de carnavalescos exibindo camiseta onde a 'homenageada' aparecia em gesto conhecido como 'dar uma banana'.
Com desenvoltura jamais vista, ergue-se o dedo médio em gesto fálico gratuitamente, por nada. Em passado não muito distante, a mídia publicou foto da Presidente da República durante a abertura da Copa do Mundo em 2014, onde Dilma Rousseff aparecia exibindo o dedo médio de ambas as mãos. O que sugeria uma reação às vaia…

Burocracia

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(Imagem: Pinterest / Jaelyn W)

Vário Moreira surpreendeu-se com o cano da arma batendo na janela do carro. Acabara de descalçar os sapatos, trocando-os pelas habituais sandálias de borracha que usava para dirigir. O ladrão, um jovem de cara risonha e cínica, assumiu o lugar do motorista, deixando o proprietário do veículo de pé, braços erguidos e fisionomia indescritível.
- Toma aí seu sapatinho, tio. Vira de costas até eu ir embora, senão leva chumbo... – o ladrão sentenciou e sumiu levando o carro.
Par de sapatos pendurado em dois dedos de uma das mãos e sem o celular, que ficara sobre o banco do carro, Vário entrou no primeiro boteco e ligou para a polícia. Esperou uma eternidade, mas a viatura que ficaram de mandar para o local não apareceu. Ligou então para a mulher que, depois de muita choradeira, pegou o outro carro da família e foi buscar o marido.
Seguiram ambos para a delegacia mais próxima, onde deram de cara com um cartaz informando que naquele final de semana (era fim de noit…