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Mostrando postagens de 2016

Paz na serra

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(Imagem: José Carlos Brandão / Facebook)



Recorro a foto que José Carlos Brandão compartilha através de rede social. É por ela que suponho a paz que, ainda ou sobretudo, se esconde em recantos longínquos. Lá, por onde não se percebem traços da rotina que indigna o país pela injustiça e pelo escárnio.
A velha casa, em cenário bucólico na Serra da Canastra, evoca silêncios que guardam história e sabedoria. Vejo bananeiras em torno dela, adivinho jabuticabeira, pitangueira, mangueira e um pé de abacate. Não se saberá das marcas de encantos e desencantos que o tempo e a serra testemunharam, ocultas pelo mato rasteiro que cobre o chão.
A ausência de uma antena de tevê espetada no telhado centenário reforça a presença de silenciosa paz. Silenciosa e preciosíssima paz, que nos preserva do interminável bombardeio de caras, declarações, notas, desmentidos e discursos de quem nos supõe em estado de idiotice permanente.
A foto não mostra flores, nem pássaros. Mas eles certamente estavam lá, trina…

Mau exemplo

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(Imagem: Pinterest / axfashions.com)

Curioso país o nosso, onde o que se afina com as aspirações da sociedade não costuma ultrapassar a sonoridade dos discursos.
No quintal do falatório há muitas unanimidades, e uma delas é a Educação. Existisse um medidor como o impostômetro registrando cada vez que se recorre à palavra educação para apontar uma prioridade no país, e haveria surpresa pela longa fileira de algarismos contabilizando essa frequência.
Não se educa sem bons exemplos. Mas na nova configuração que se procura dar à sociedade, exemplo é primo-irmão do conselho: se fosse bom, seria vendido. Nunca como antes, o velho aforismo do 'faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço' exibe-se com desenvoltura exatamente de onde deveria ser escorraçado a vassouradas.
Proscrito como galocha, bomba de flite ou máquina de datilografia, o bom exemplo foi amordaçado e dispensado no porão escuro do esquecimento, para onde soberbos e imprudentes costumam enviar valores universais como…

Peregrino

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(Imagem: Pinterest / homoviatorplenum)

Quando abriu os olhos, o dia também nascera. Aprendeu a dominar o escuro-claro, a driblar a insegurança do desconhecido, a encantar-se. Agarrou mãos, amou olhos, sorriu para sorrisos.
Chorou, brincou.
Iluminou caminhos, embora o azul da manhã também lhe revelasse sombras. Descobriu formas e tamanhos; cores, gente e rumos; cão, flores e dores. Houve risos, sonhos, diversão.
Amou.
No calor do meio-dia, entregou-se. Esfalfou-se. Mais gente e mais dores, menos risos e sorrisos. Soube da solidão, que enfrentou a dois, a quatro... Havia sonhos, projetos, futuro. Pediu fé.
Conduziu.
Em tarde morna, ocaso de sombras e de fina névoa. Os olhos varriam o claro-escuro, sorrindo silêncio de corações peregrinos e já distantes. Surpresas se revelaram em solidões e lágrimas.
Lembrou.
Procurou mãos no frio da noite. Recordou olhos, desejou sorrisos.
Cansado e só, adormeceu sorrindo.
(Repost - Editado)

Hibernando

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Gustavo Oliveira



Tocada pelo céu cinzento e pela chuva miúda e persistente que cai por lá onde ela mora, Mariana anuncia hibernação. Decisão sedutora, sobretudo quando parece predominar entre nós um certo desalento que, assim como a chuva que fustiga a poetisa, acinzenta horizontes.
As razões desse desalento podem brotar do noticiário que a cada dia retrata um cenário que evoca o mitológico Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma pedra de mármore até o cume de uma montanha. Por desígnio dos deuses, a pedra então rolava de volta ao ponto de partida, obrigando o personagem a recomeçar todo o trabalho.
Em tempos em que o absurdo vai adquirindo admirável naturalidade, segundo definição de conceituado comentarista político, refugiar-se no silêncio é consolador e reconfortante. Não o silêncio omissivo, mas o restaurador silêncio que nasce da exaustão e da sabedoria e que, em muitos casos, costuma ser mais eloquente que vários discursos.
Na Antiguidade …

O rabo da ratazana

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(Imagem: Pinterest)

Fábulas. Há também a do gato e do rato velho.
Rodilardo, o gato, temido pela crueldade, passava fome diante da falta de caça. Aterrorizado, o povo rato mantinha-se nas tocas.
Mas o que tinha o gato de maldade, tinha também de esperteza. Pendurando-se cuidadosamente em uma trave de madeira, fingiu-se de morto. A notícia logo se espalhou, e dando-se conta da novidade, a rataria realizou festa espetacular. Cantavam, dançavam, riam, apostavam na causa da morte do bichano. Até que, lá pelas tantas, Rodilardo ‘ressuscitou’, trucidou uns tantos e ameaçou roer até os ossos dos fugitivos.
Não satisfeito pelos muitos ratos que lhe haviam escapado das garras, o gato cobriu-se de farinha e foi deitar-se junto à sacaria, enganando assim o restante do bando. Menos a uma ratazana velha e sem o rabo, perdido em outras armadilhas do passado.
A história vem a propósito da releitura de um artigo escrito há tempos pelo dramaturgo Mauro Rasi, falecido em 2003. Nele, Rasi ressalta a seguranç…

O grito pela esperança

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(Imagem: Pinterest / Dutch Uncle)
Parece consensual a ideia de que vivemos tempos ameaçadores. Ouve-se por aí, entre meias-vozes e olhos arregalados, a rotina de previsões sobre dias (mais) difíceis, e até uma quinzena que se aproximaria escura como a noite. Noite que, para Santo Agostinho, é a mãe dos maus.
À medida que avançamos na informação, avançam sobre nós os temores. O futuro, não raro risonho e dócil às nossas esperanças no passado, hoje tem feições marcadas de apreensão e medo: o que é possível à maioria aguardar de um amanhã inevitavelmente atrelado a um hoje em que a vida é banal, o discurso enganador, a mesa rara, a saúde cara e o conhecimento inacessível?
A transformação de uma entressafra em longa estiagem de lideranças capazes de conduzir a sociedade a horizonte de realizações duradouras, respaldadas em valores universais, se, de um lado, faz sedutor e temerário o olhar para o passado, de outro emite alertas. Mais: exige mudanças muito além das que nos pedem apelos ado…

Boa notícia

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(Imagem: Pinterest / technoimage)
Não tem sido fácil oferecer ao leitor – este ser solidário e crítico – textos que o aliviem de temas preocupantes, ainda que por um quase nada de tempo. Ágil em abafar o murmúrio da canção que embala esperanças, desejos e alegrias, o cotidiano mostra-se quase sempre carregado de monstros bem nutridos e ruidosos.
Como escreveu mão anônima em muros da capital equatoriana certa ocasião, noite e sonhos avançam juntos. Talvez nos faltem fé e esperança que nos arrastem escuridão adentro, conduzindo-nos à saída do túnel. Quase epidêmica, a má notícia é, a um só tempo, ágil no despertar e entorpecer emoções. Toca mais do que a rara emoção que brota da conquista que liberta. Até porque esta, com traços de pieguice açucarada, virou estratégia de marketing.
É preciso conhecer a infelicidade alheia, bisbilhotar-lhe dores e angústias antes de experimentarmos a lembrança fugaz de que ainda podemos nos levantar a cada manhã, com saúde e planos de navegação para a vida.…

A lista

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(Imagem: Pinterest / Angel Boligan)
A uma semana da eleição, anotei os dois primeiros algarismos do número que identifica os candidatos por agremiação política. Pretendia com isto identificar, entre os mais de 400 candidatos a vereador em Juiz de Fora, a quais partidos e coligações os pretendentes ao legislativo municipal estavam filiados.
Fui ao site do TRE-MG. Ali naveguei exaustivamente sem dar com a relação dos candidatos. Enviei e-mail àquela repartição, solicitando que me informassem o caminho para chegar à tal lista, já que a mesma só estava então disponível com facilidade aos assinantes ou a quem se dispusesse a adquirir um exemplar do jornal local.
A resposta veio logo, acompanhada do link para alcançar o que eu pretendia. Mesmo exigindo certo nível de experiência com a internet (o site do TRE-MG não oferecia uma aba com atalho para se chegar facilmente aos candidatos), consegui chegar aos nomes.
Apesar desse relativo sucesso, não foi possível copiar a lista em formato legíve…

O candidato

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(Imagem: Pawel Kuczynski / yogui.co)

- O amigo fique sabendo que hoje me sinto mais leve, como há tempos não acontecia.
- Ah é? Posso saber o motivo desse ar assim tão satisfeito?
- Poder até pode, mas sabe como é, né? O assunto nem é muito bom de se conversar assim, numa fila de banco...
O outro deu um sorriso amarelo e calou-se. Para por um fim na conversa e dissimular a curiosidade, passou a ler as instruções de uso impressas na embalagem de um inseticida para plantas que trazia numa sacola. “Vai ver, o assunto do levezinho aí é mulher”, pensou.
- Mas o amigo fique à vontade se não quiser conversar a respeito. Eu não lhe confessei o motivo de meu alívio, e penso que não seria justo deixar assim a coisa no ar...
- Sim ? – o primeiro gemeu erguendo as sobrancelhas, mas sem desviar os olhos da embalagem de inseticida.
- Pois então, o motivo é a política.
O leitor das instruções de uso enfiou a embalagem de inseticida na sacola, arregalou os olhos e desligou-se do mundo para entregar-se à conv…

Nanicos

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(Imagem: Pinterest / Steve Cutts)


A triste página de sua história que a Nação escreve bem poderia dispensar o longo desfile, pelas tribunas da Câmara e do Senado, de políticos nanicos chamando a si os méritos pela cassação de mandatos – seja quem for o cassado –, exibindo-os como um troféu conquistado em batalha.
Essa demonstração de pequenez e imaturidade para exercer um mandato parlamentar tem marcado presença constante nos discursos de representantes de partidos que, em verdade, pouco ou nada dizem ao cidadão exasperado diante do que vê e prevê.
Se é indiscutível o fato de a democracia não prescindir de partidos políticos e seus membros, não menos verdade é que, apesar disso, persiste o mau cheiro que exala do cenário onde lideranças deveriam agir em nome do cidadão. Este, chamado regularmente a trocar seu voto por promessas tão voláteis quanto sorrisos e apertos de mão de candidatos durante a campanha eleitoral, tem sido desrespeitado sem o mínimo constrangimento da parte de quem o r…

Pimpinâncias

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(Imagem: BETLR)


Uma fileira de pequenos adesivos colados na parede do banheiro assinala importante conquista de Gabriel no uso, primeiro do peniquinho, depois do vaso sanitário. Dispostos em linha reta estão heróis, planetas, símbolos, logomarcas e bichos, entre os quais o golfinho Bastapolo, o cavalo marinho Lacutaco e o peixe Mutucalo.
Tempos olímpicos (relativamente ao esporte, e não ao caradurismo na política) acabaram apresentando aos quatro anos do herói o Hino Nacional Brasileiro. Dono de ouvidos sensíveis a ritmos e acordes e, além disso, atento e aplicado intérprete de canções que lhe despertem o interesse, o pequeno patriota deu início dia desses à cantoria no banheiro, diante das marcas enfileiradas de suas vitórias.
Em gravação feita pelo pai, o cantor começa com um surpreendente 'pimpinante' (retumbante?). E segue na melodia original:
"O alfava da umalibi pimpinichitu / O pipi ta na panela da xistante / Se espelhavam acebledade / Que va ser o môfo da felicidade /…

Notícia de amor

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(Imagem: Pinterest / Claude Monet)


A manhã azul e fria encheu-se do ruído habitual. A novidade era aquela inscrição no asfalto, pintada caprichosamente por mãos anônimas durante a madrugada: Laura, me perdoe. A súplica terminava em um coração bem desenhado, cujas linhas contornavam um buraco ainda pequeno, mas que a chuva e o trânsito se encarregariam de ampliar como a dor de uma paixão não correspondida.
Estrategicamente posicionada para ser vista do pequeno prédio de apartamentos bem em frente, a mensagem chamava a atenção de quem transitasse por ali, particularmente dos passageiros que aguardavam o ônibus na calçada do outro lado da rua. Quem seria Laura
- Falta de vergonha, sujar assim a rua... – reclamou a jovem abraçada a uma pasta recheada de papéis, apontando para a pichação enquanto buscava com o olhar o apoio da mulher que usava um chapeuzinho de flores.
- Gente que não tem o que fazer... – acrescentou o homem de guarda-chuva.
A mulher voltou-se para um e outro e argumentou: talv…

As malas de Marina

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(Imagem: Pinterest)


Há tempos dei com pequeno texto de Marina, jornalista de passagem meteórica com seu blog pela internet. Ele começava com a dúvida sobre se Lisboa dormia cedo demais, ou se era ela, Marina, quem estava sempre acordada.
Pois há textos que pegam a gente e não largam. E esse é um deles. Tratei de conservá-lo, e creio que registrei comentário à época. Se não o fiz deveria tê-lo feito, pois o texto merece.
A autora transpira dolorosa solidão em apenas uma dúzia de linhas. Da janela, Marina não mais reconhece o silêncio de ruas que já não lhe dizem nada. “O barulho dos raros carros em Arroios em nada diferem dos sons de ninar que agora passam num canal português”. Canção, aliás, que não chama e nem lhe tira o sono.
Uma semana havia se passado desde que Marina chegara à capital portuguesa, mas as malas continuavam “quase intactas no chão, prestes a serem levadas para o primeiro autocarro, comboio, avião... para um destino qualquer”. Destino que já fora Dublin, de onde, “apesar…

Ana

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Lindy Nobre Scher)



Abriu o portão da garagem pela manhã e deu com um carro estacionado bem em frente, impedindo sua saída. Esperou pelo motorista, mas atrasado para o trabalho, fez um bilhete e prendeu-o no limpador de parabrisas: “Você me impediu de sair. Em consideração, deixo de solicitar o guincho”.
Ao chegar em casa no final do dia, o homem encontrou um papel cuidadosamente dobrado e metido numa fresta da porta,: “Sinceras desculpas! Tive problemas com Michelle e fiquei aflita. Um abraço. Ana”.
O bilhete de Ana (nome de sua primeira namorada) recendia familiaridade, calor humano e um perfume agradavelmente suave. Mesmo por escrito, era impossível ficar indiferente a uma saudação que, nascida de um pedido de desculpas, desembocasse num abraço e permitisse ao destinatário supor até um sorriso da remetente. Além do mais, não conhecera Ana que fosse feia.
Já amplamente desculpada, a motorista que bloqueara sua saída inquietara-lhe a solidão. Insone, ficou …

A tosse da vaca

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(Imagem: Pinterest, do álbum de FelipeArte)
Sem ter como segurar a língua nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos. - Tá feia, a coisa... O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa. - É, a coisa tá preta mesmo. O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão. - Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço. - Mas é preconceito... – insistiu o outro. - Quê que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa. - Isso eu não sei, mas que é preconceito, é. Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e vel…

A Carta

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Helton Bastos)

Querida Danielle: Vovô escreve para você porque sua mãe me disse da sua dificuldade em cumprir essa tarefa da escola. Assim, envio-lhe esta carta, que você responde, copia tudo no seu caderno de casa e leva para a professora. Aí você me conta que sua cartinha para o vovô foi a que tirou a melhor nota, combinado? Vovó Esperança e eu estamos bem, mas com muitas saudades de vocês. Qualquer dia a gente aparece aí na capital. E você? Estudando bastante? Como estão seus pais? Enquanto escrevo, o vizinho aqui em frente ouve essas músicas de hoje – o tal de funk. Você gosta disso, Danielle? Pois vovô agora se delicia com a terceira de Brahms... Espero que você tenha desistido de fazer a tal tatuagem de dragão. Você é ainda muito nova, e seus pais estão certos em não deixar que você faça isto agora. Estude bastante. Vovô já está ansioso para receber sua cartinha. Um beijo para você. Ass.: Vovô Felício e vovó Esperança. PS – Peça à sua mãe notícias da Juju …

O Vigia - 11

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Peguei meu rádio, algumas peças de roupa e o que sobrou do mapa, e meti tudo numa sacola. Tive o cuidado de não esquecer a cópia amarelada de “O Vigia”, que tão ternas recordações me traz de sua autora. Tudo pronto, fui a mais uma noite de vigília. Bebel não apareceu. Estive apenas com Priscila, a quem entreguei um envelope lacrado recomendando-lhe que o fizesse chegar às mãos da minha amiga. Em telegráfico bilhete, eu falava sobre uma “breve temporada de férias”, cujo retorno à pilha de tijolos só eu sabia que não aconteceria mais: logo cedo eu passaria no escritório do patrão, onde alegaria uma emergência qualquer – algo inadiável, definitivo e grave o suficiente para que pedisse demissão. À curiosa Priscila eu disse, sério, que o envelope continha passagens aéreas que nos permitiriam, Bebel e eu, passar tórridos dias de lazer em Burkina Fasso.  A loura arregalou os olhos, deu um gritinho e disse que tomaria satisfações com a traidora com…