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Mostrando postagens de Outubro, 2015

Votos e devotos

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(Imagem: ROSSANA761)
O argentino Jorge Mario Bergoglio chega ao noticiário trazendo com ele os pobres. Queridinho da mídia, o Papa Francisco encanta pela figura carismática, mas o foco que projeta sobre os desfavorecidos incomoda. Pobre é massa, e entre nós só têm comovido governantes e líderes políticos enquanto capazes de chegar à urna eleitoral. Não será, portanto, necessário lembrar-lhes a existência, pois o oportunismo, muito mais do que as urgências, não permitirá que sejam esquecidos. O tema, claro, é e será sempre recorrente. Estão aí os aglomerados sub-humanos dependurados nos morros ou à beira dos rios, de onde as enchentes carregam vidas e carnês com prestações a perder de vista. De outro lado, observa-se também o vigoroso empenho na construção dos tais estádios de futebol, vilas olímpicas e mais obras que a vontade política empurra ladeira acima com fôlego de atleta. De escolas públicas em ruínas e professores mal remunerados nem se fale. Idem com a saúde, o transporte, a segu…

Voo solitário

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(Imagem: Pinterest / David Tipling)
Dou com uma bela foto na internet. No alto de uma colina e em meio a uma vastidão de solo coberto de neve, um andarilho segue em direção ao horizonte. À sua frente o chão é imaculado, contrapondo-se à trilha que o acompanha – funda, escura, denunciando o trajeto percorrido. No céu sem nuvens, um sol majestoso brilha iluminando tudo. A cena sugere uma solidão como a que nos ameaça num mundo globalizado, informatizado e que cultua o individualismo. Inquietante e amarga, dela tentamos desviar a atenção, em cacoete tão perceptível quanto inútil. Como o que nos descreveu o escritor francês Jean-Dominique Bauby, em O Escafandro e a Borboleta. Vítima de acidente vascular cerebral que o imobilizou (exceto a pálpebra esquerda, usada para “ditar” o livro), Bauby era conduzido todas as manhãs à sala de fisioterapia do hospital. Amarrado a uma espécie de maca, os enfermeiros o içavam por cordas, mantendo-o por algum tempo no que ele definiu “uma hierática posição …

Façam o jogo, Senhores!

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(Imagem: Google / Revista Forum)


“Tenho vergonha do Congresso Nacional do meu país”'. A frase circula em adesivo colado no parabrisas traseiro de um veículo cujo motorista, a exemplo de muita gente, deve se considerar apenas vítima dos maus políticos. Em circunstâncias como as que vivemos na política, parece escapar à percepção comum que a má escolha é responsabilidade nossa, e não 'dos outros'. Se poderes da República nos constrangem, então é porque provavelmente votamos mal. Simples assim. Com a palavra devastada, maltratada e desacreditada como se dá atualmente, é imprescindível ter cautela e sabedoria para não embarcar de primeira no que dizem os discursos, as declarações, e sobretudo a imprensa. Os avanços da tecnologia favorecem também o aprimoramento dos meios para manipular a opinião pública, seja pela palavra, seja pelo silêncio. Aqui, o dizer e o não dizer se equivalem quando a questão é distorcer e influenciar, sugerir, confirmar ou negar. E, claro, mentir. É notóri…

Dançando com a geladeira

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(Imagem: Pinterest / Alexandra Bodnaruc)

Uma Luana que não conheço em pessoa nasceu com este blog há seis anos. Chegou lá no Planalto Central, sinalizando um V com dois dedinhos como se prenunciasse uma vitória. Como acontece com quase todas as crianças – e pelo que pude perceber pela janela virtual – foi recebida com o carinho e a alegria que marcam as chegadas precedidas de muito desejo e expectativa. Talvez seja esta é uma forma sutil que a felicidade tenha de nos fazer um aceno. Bem distante da sede do Poder, dona Matilde sonha com o dia em que a felicidade também lhe sorria, livrando-a da inseparável enxaqueca. Depois de testar e reunir numa pasta as anotações de todas as receitas para ser feliz sem dor de cabeça, dona Matilde agarrou-se à mais bizarra sugestão que lhe deram: não podendo amarrar a felicidade junto ao peito, amarrou na testa uma folha de laranjeira. E para não se submeter a meio grau de temperatura inferior à do ambiente de maneira súbita (exigência complementar ao …

Çalve o portuguez

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(Imagem: Google Images

Mesmo correndo o risco de ser lido como um rezingão (a palavra soa como a marcação do ‘barulho’ ensurdecedor e ritmado a que muitos motoristas submetem quem esteja no seu caminho), não custa registrar ainda uma vez o descaso generalizado e crescente com a pobre Língua Portuguesa. Falar e sobretudo escrever de forma correta está se tornando artigo raro como a credibilidade das lideranças. Não se considere aqui o ‘falar do povo’, que é o que se conhece, mas o modo pelo qual as faixas supostamente mais eruditas da população se comunicam. Começando pelos jornais, de onde os revisores – no passado denominados copidesques – parecem ter sido definitivamente banidos. Dia desses, um dos maiores jornais brasileiros estampou na primeira página uma pérola, ao noticiar que determinado jogador era suspeito de fraudular a compra de um automóvel. Recorro ao Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, e confirmo que o vocábulo fraudar,…