Chance perdida

(Imagem: Pinterest, pin de Rocio Simon)

Benditos amigos da confraria do Bar do Augusto, aos quais Eforce Uan Calixto Dores – ex-acertador de maçaroqueira, ex-arriador de filatório, ex-aprendiz de macarroneiro, ex-artista de força capilar e ex-bokonô – passara a dever mais um empurrãozinho na tentativa de acertar o pé na vida. Conhecido pelos confrades como Piloto Cheirinho, topava qualquer parada desde que a proposta não afrontasse 'escandalosamente' a lei e os bons costumes. Mesmo com a abundante e riquíssima variedade de superiores exemplos.
No Bar do Augusto, um dos membros da confraria acenara-lhe com a chance de “por a mão numa graninha”. Não era lá grande coisa, mas a oportunidade poderia render-lhe agenda de compromissos para o ano todo. Que trabalho?
- Moleza, Piloto! – o confrade tranquilizara o ansioso Eforce Uan. – Duas horinhas só vestido de macaco num fim de semana. Vai lá, conversa com o Petruco...
A caminho do encontro com o agente de eventos e locação de fantasias, Eforce Uan ensaiou argumento que lhe pareceu decisivo para demonstrar experiência profissional: diria que, "entre outros papéis semelhantes", interpretara o de jacaré como mascote do Clube Atlético Landinho Gorupira – o Calango. É verdade que tudo acontecera por poucos meses, até que a diretoria optasse pela dissolução da entidade em razão da escassez de atletas, recursos e sócios solidários e convictos.
O tal Petruco recebeu o candidato sem dar-lhe muita atenção. Apontou para o figurino de macaco – na verdade um gorila aterrador, porém sem a cabeça. A peça vestia um capacete, posto sobre uma cadeira num canto da sala.
- Vai querer com guinchado? – o agente perguntou ao confuso cliente. Não obtendo resposta, explicou-lhe que a fantasia podia ser ou não acompanhada de equipamento com a gravação da voz de alguns animais. Acomodada em bolso embutido sob a axila esquerda, quando pressionada a engenhoca reproduzia guinchado, rugido, cacarejo, gorjeio ou relincho. Para isso, bastaria selecionar a voz compatível com a peça a ser utilizada.
O homem enfiou a cara na roupa de macaco, ligou o equipamento e o acionou. A cabeça do king-kong então emitiu, ao invés de um rugido de fera, um estridente uaa-uaa-uaaa.
- Aí, é só encaixar a cabeça depois de vestir a fantasia e fechar o zíper – explicou o Petruco.
Tudo acertado, Piloto Cheirinho retirou-se levando numa sacola a ferramenta de trabalho.
No dia do evento Eforce Uan compareceu ao salão de festas pouco antes das 23h, conforme o combinado. Entrou por uma porta lateral e chegou ao camarim improvisado, onde vestiu o figurino, testou a unidade de voz e aguardou ser chamado. No momento certo, entrou no salão em penumbra e acionou o equipamento, que passou a emitir o guinchado de um macaco a intervalos regulares.
Logo a surpresa caiu no gosto dos convidados, que se divertiram com o guinchado de chipanzé na figura de um gorila selvagem. Depois de dar uns saltos e simular uma ou outra ameaça de ataque, o king-kong passou a integrar a equipe de garçons.
Já prestes a encerrar-se o período para o qual Eforce Uan fora contratado (e depois de submeter-se a uma série quase infindável de selfies), um caroço de azeitona lançado por mãos anônimas mergulhou decote adentro de uma convidada. Já tonto pela bebida, o acompanhante da mulher decidiu reclamar satisfações, e como não se identificara o responsável pelo disparo, deu-se início à confusão. O homem queria porque queria a presença dos organizadores do evento. E o fazia de forma exaltada no instante em que o macaco passava a seu lado emitindo um guinchado.
Derrubado no tumulto que se formou, Piloto Cheirinho não apenas foi parar debaixo de uma mesa como o equipamento de voz mudou de guinchado para cacarejo. Impossibilitado de desativá-lo naquela circunstância, Eforce Uan esgueirou-se como pôde até alcançar o camarim. Ali, para sua surpresa e aflição, constatou que o fecho que prendia a cabeça ao corpo da peça havia emperrado.
O salão continuava tomado por gritos, barulho de copos e de bandejas indo ao chão. Uma voz feminina insistia:
- Gente, cadê o macaco?
Foi a senha para que Eforce Uan ganhasse a rua e corresse tanto quanto pudesse. O equipamento de voz seguia cacarejando, indiferente aos golpes que, àquela altura, Piloto Cheirinho desferia em si mesmo.
Na primeira esquina deu com a polícia e foi parar na delegacia, de onde saiu depois de explicar tudinho, tintim por tintim, quando a madrugada já ia alta.

Comentários

Célia Rangel disse…
Uma comédia nacional essa sua crônica, Eduardo!1 Há muitos "galinhos garnisés" cacarejando ladeira abaixo... de tantas macaquices aprontadas!
Abraço
Marisol disse…
Muito obrigada, Eduardo pela partilha

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