A receita

(Imagem: Pinterest, pin de Lyn LaCava)


A quadragésima-segunda edição de Contos Pátrios, reunindo textos de Olavo Bilac e Coelho Netto e publicada em 1954 pela Livraria Francisco Alves, era voltada à formação escolar infantil, na área da extinta Educação Moral e Cívica. Dela faz parte o conto intitulado ‘O Rato’, que tem por personagens principais um menino de nove anos e sua mãe – mulher paralítica ‘que jazia prostrada pela moléstia’.

Muito esperto, o garoto acordava cedo, fazia a limpeza do aposento onde vivia, ‘mudava a água nas bilhas, deixava ao alcance da mão da paralítica a cafeteira e o pão’, e saía à rua para pedir esmolas na porta das igrejas. E o fazia resguardado por um atestado de médico, que ‘por misericórdia’ tratava da doente.

Narra ainda o texto que certa vez, depois de voltar para casa chorando e levando algumas moedas, a criança nada explicaria à sua mãe. No dia seguinte ela o veria chegar sorrindo e trazendo nos bolsos mais dinheiro. O menino então revelaria ter vendido jornais para um amigo de rua, tendo este lhe prometido aumentar a quantidade de exemplares, transformando o até então infeliz pedinte em digno jornaleiro. Quanto ao pranto da véspera, ele fora resultado da humilhação imposta ao garoto pelo pai de outra criança, ao negar-lhe uma moeda por desconfiar que ela seria deixada ‘na primeira taverna’.

Excessos à parte, a olhos atuais não pode passar despercebida a distância estelar que nos separa  de uma sociedade baseada em valores hoje moribundos, para dizer o menos. Há mais de seis décadas, não causaria muito espanto que uma criança de nove anos cuidasse de sua mãe inválida com tanto zelo e responsabilidade. E nem que, para isso, tivesse que esmolar à porta das igrejas, respaldada por um atestado de médico que atendesse a paciente com compaixão e gratuidade.

O leitor do século 21 não vacilaria ainda em ver as cenas descritas como ficção meio boboca, ao imaginar que um menino pobre voltasse para casa, sistematicamente, depois de passar o dia inteiro pedindo esmolas. E – mais surpreendente – levando e entregando à sua mãe o dinheiro angariado.

Encontrar um amigo de rua que encaminhasse o pedinte para uma profissão como a de jornaleiro (que, por sua vez, lhe rendesse o suficiente a seu sustento e ao de sua mãe), parece tão impossível quanto crer que uma criança de nove anos, vivendo nas ruas e agindo mal, hoje, pudesse empregar a esmola recebida na aquisição apenas de inocente tabaco ou bebida em um bar.

Delírio mesmo só a sobrevivência, em nossos dias e por mais de quarenta edições, de um livro de contos infantis de autor brasileiro adotado pelas escolas.

Lá ou cá, algo saiu ou está saindo errado.

(Repost)

Comentários

Célia Rangel disse…
Vejo que urge que devolvemos "a criança para dentro dela mesma"... Anulou-se essa linda fase em que "as famílias" cuidavam das mesmas. Ao anteciparem fases da vida, perderam-se.
"RECEITA"? Equilíbrio entre a razão e a emoção.
Abraço.
Infelizmente diante da inversão de tantos valores é difícil saber realmente no que devemos acreditar...
Tenha uma semana abençoada! Um abraço!
http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/

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