Vendo além


(Imagem: Pinterest / kanaes.com – Pin de  Karlijn Van Asten)

A determinação de descobridor anota tudo o que Gabriel observa no volume farto e virgem da memória. E o faz com bom humor e graça – esse ser miúdo e de uma sociabilidade universal tão encantadora quanto desconcertantemente verdadeira, ao realçar as marcas da caminhada que levamos conosco.

Duas voltas e meia do planeta Terra em torno do Sol. Apenas isto, e Gabriel já sabe o que é um xilofone – palavra que dirige o olhar do vendedor da loja de brinquedos para o teto. "Xilofone, xilofone..", repete como se folheasse mentalmente um dicionário. Atitude semelhante à da moça da livraria: ao ser indagada qual o best seller disponível, respondeu que “best seller” já havia se esgotado.

Não é só xilofone que Gabriel conhece pelo nome. Sabe-se lá porque, ele também gosta da palavra emergência, e do nada, sem nenhum propósito e quando menos se espera, lança no ar um "tarde demais". Mas em alguns momentos, com a melhor cara do mundo, ri e diz que tudo “é muito divertido”. De volta de um fim de semana no hotel-fazenda, conta que tirou leite da vaca e que ele – e não a vaca – usou um chapéu de peão.

Mal iniciados os primeiros passos de sua peregrinação, Gabriel já põe em uso as fórmulas grisalhas do ‘por favor’, ‘licença’ e ‘obrigado’. Na fase final de abandono do uso da fralda, o pai conhece sua retirada estratégica e em silêncio para um canto qualquer da casa. Pergunta-lhe então, ao pé do ouvido, se quer fazer cocô. “Não, obrigado” – é a resposta.

O azul translúcido do olhar dessa criança com pouco mais de dois anos de idade, diz da inocência e da pureza que o mundo e a maturidade se encarregarão de modificar. Despreconceituoso, dócil, verdadeiro, criativo, alegre, divertido, confiante – encantador. Haverá de pressentir e ver muito além do ônus que a vida lhe imporá pela aquisição da sabedoria – como a todos nós –, de forma a não perder a coragem de encará-la com fé e bom humor, evitando praticar o mal que ainda desconhece.

Comentários

Célia Rangel disse…
Ah! Como seria bem diferente se tivéssemos muitos "Gabriel" espalhados pelo mundo! Que ele continue assim autêntico em sua caminhada...
Abraço.

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