Traduções

(Imagem: Pinterest, do álbum OMG-pink kitty (sarah) )

Renovar. Inovar. Revirar o quarto, a casa, o mundo, a vida. Ver o avesso de tudo.

Foi com essa disposição que Margot começou o dia. O passo seguinte foi inverter os passos: calçou as sandálias de borracha em pés trocados, apesar dos apelos recheados de pelamordedeus da mãe, que saiu à procura do telefone do psicólogo. O pai limitou-se a franzir a testa.

Respondendo de pronto à segunda chamada daquele impulso revolucionário, a adolescente escancarou as portas do guarda-roupa e fez desabar um everest de roupas, culminando a avalanche com um poncho de flanela.

- Mãe, como é que usa isto?

Cabeça enfiada dentro da bolsa, a mãe ainda procurava o cartão do psicólogo. Optou por uma trégua e pela negociação.

- Veste por cima, o poncho fica sobre os ombros... Como uma capa.

De frente para o espelho, Margot teve a impressão de que usava um babador. A peça era pequena, havia sido de seu pai quando criança. Olhou bem, virou-se para um e outro lado, até que decidiu: a revolução não podia parar ali, num poncho de flanela bonito, diferente, mas pequeno.

O movimento seguinte foi o computador. Absurdamente monótono do outro lado da porta do quarto, o mundo da moda não perdia por esperar: uma nova Margot renasceria daquela montanha de peças de roupa medievais. O segredo estava em trazer a novidade pela tela do notebook.

Caçada virtual sem rumo, vacilante. Idas e vindas, interrogações, trevas que a ignorância de Margot justificava como “complicação da mesmice”. Até que a vida coloriu-se e passou a fazer sentido, não num poncho de flanela, mas num exuberante xale vestido pela modelo. O site estava em inglês, mas revolucionária determinada, Margot deu um sorrisinho de deboche e apelou para o programinha de tradução.

Tudo posto em língua de gente, o texto começava com o depoimento de alguém que havia adquirido o “shawl preto, na abundância da hora para nosso desengate”. O comprador agradecia a eficiência do fornecedor ao oferecer “um shawl de much apenas bonito”, revelando em seguida que “meus filha e eu somos excitados e teremos uma estadia grande fazer exame das voltas que desgastam”.

Não importava aquela incompreensível baboseira, mas apenas que ela, Margot Shawl (passaria a adotar aquela palavra como sobrenome, em lugar do Silveira totalmente sem graça), sairia em busca do tal “shawl de much”.

Sairia, não fosse o notebook de Margot ter passado para o lado inimigo – traição insuportável. “Emparelhe acima deste shawl da franja com a roupa menos-cara para resultados stunning. Um shawl pode completamente mudar o olhar de um par das calças de brim e substituirá um revestimento a qualquer momento...”

Mudar o olhar de um par de calças? Tudo o que a revolucionária Margot tinha em mente era a inveja das amigas e o olhar dos garotos... Na incerteza, o melhor era recuar.

O canhão inimigo explodia do outro lado da porta do quarto, que estava a ponto de vir abaixo pelos murros do pai. Na retirada, Margot transpôs de cabeça erguida a montanha de roupitas adoráveis.

Depois do almoço, antes de sair para a escola, radicalizou calçando o par de tênis em pés trocados.

(Repost - Reeditado)

Comentários

Célia Rangel disse…
Olhe, Eduardo... creio que no século XXI a adolescência com seus "fricotes" chega já na primeira infância! Enquanto no século passado éramos cordeirinhos e bem submissos, na base do "psicochinelo", hoje "os ticos e tecos" alvoroçam-se desde muito cedo... Senhores do próprio nariz!
Abraço.
A grande ironia dessa faixa etária é a tentativa de radicalizar, romper com tudo, mas, simultaneamente, depender enormemente da opinião do grupo, não é?
Seu texto é sempre muito bom de ler!
:)
E.P. GHERAMER disse…
Aqui estou eu, satisfeito, depois de ler sobre a "revolução da Margot" que, depois de "n" trombadas com os "tradutores" e murros de seu pai, ultrapassou, solenemente, a "montanha de roupitas", em direção à escola, com "o par de tênis em pés trocados" - Uma vencedora!
Obrigado, meu amigo. Acho que as coisas seriam mais difíceis sem as leituras de suas Crônicas.
Um grande abraço, Eduardo.

Postagens mais visitadas deste blog

Atraso sobre rodas

Ruínas