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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

A arma da besta

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(Imagem: Pinterest, do álbum de Edie Surtees)
Envolvidos com o turbilhão de opções, exigências, informações, desejos, necessidades e apelos que nos cercam, seguimos a cada dia em direção à silhueta de um futuro que, desejado sorridente, se insinua sombrio. Desatentos, passamos ao largo de realidades cujas conseqüências corremos o risco de ter irreversíveis. A violência e suas variações, tanto mais cruéis quanto rotineiras, é um desses horrores que, com indiferença cada vez maior, vemos embarcar em nosso cotidiano. Aqui, o destaque é a marca – acima do padrão internacional – que detém o Brasil, relacionada ao assassinato de mulheres. A média registrada na última década, segundo divulga a imprensa, é de dez mulheres mortas a cada dia. À nossa frente, apenas África do Sul e Colômbia. A pesquisa aborda somente ocorrências de assassinatos no País – a maior parte por motivos torpes, como negativas de fazer sexo ou de manter um relacionamento. Não aborda, assim, outras formas de crueldade, a ex…

Companheiro

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(Imagem: Flickr, do álbum de TJ Scott)
Escalada relativamente longa, a daquela montanha. Obstáculo acidentado, enfrentado em dias raramente azuis.
Olhar fixo no alto, a moça subia devagar. Gotas de chuva umedeciam-lhe os olhos, porque havia chuva e havia frio. Não ia só. Em algum momento surgira-lhe um cão de ar aristocrático, olhos vigilantes e raros latidos. Nada de rabos abanando ou lambidas na cara de sua dona. O cão olhava à frente com olhos de cão, e até que surgisse, apenas sonhos tomavam a atenção da moça. Sonhos não latem e nem lambem o dedão do pé da gente, ela refletiria mais tarde. Mas também não são fiéis.
Ambos avançavam pela encosta, ansiosos por descobrir o outro lado. A esperança puxava a moça, a fidelidade empurrava o cão. Alegrias de outros tempos ecoavam risos lá embaixo, onde tudo começara. Para ouvi-los, bastaria voltar-se um pouco.
Os dois seguiam em frente, ofegantes. Às indagações de olhos e orelhas do cão, a moça respondia com afago sério e contido. Solidário, o …

Lágrimas

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(Imagem: Pinterest/Nádia Sarwar, do álbum de HonestlyWTF)
Cinco mulheres entram em um vagão do metrô de São Paulo lendo silenciosamente uma carta. Logo deixam as folhas de papel sobre os bancos e, em prantos, saltam na próxima estação. Ao lerem o documento, os curiosos passageiros veriam tratar-se de convite para exposição de artista plástica francesa, realizada durante evento anual de literatura no Brasil.
Apesar de tudo, lágrimas ainda movem e comovem. Mais que expressar emoções, cutucam a miséria de nossa condição humana. Mohamed Said Fellag, escritor, humorista e comediante nascido na Argélia, confessou certa vez chorar sozinho nos bastidores antes de seus espetáculos. E o fazia porque se lembrava das vítimas e amigos mortos em chacinas naquele país africano, então assolado por uma guerra civil. “Dou risadas para não me suicidar”, declarou ele a uma jornalista. O poeta norte-americano Theodore Roethke também denunciou lágrimase solidão quando disse: “Choro pelo que sou quando estou …

O competidor

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(Imagem: Pinterest / etsy.com, do álbum de Blue Baldur Streetwear)
O ex-zé-ninguém e agora combativo Josué Pilunga Freitas sentia-se um novo homem, de espírito renovado e autoestima altíssima. A caminho de casa, concluíra pela mudança depois de assistir a palestra dirigida aos novos vendedores da firma produtora de pasta para limpeza pesada de pisos e cerâmicas. “Eu sou e serei um vencedor sempre!”– era o lema a que todos deveriam aderir daí em diante. Lema, não: palavra de ordem.
Que exemplos extraordinários de conquistas e superação relatados pelo palestrante – homem fluente e convincente! Em relação à vida e ao mundo, vencer era, basicamente, uma questão de ponto-de-vista. Se Você se sente um vencedor quando toca os pés no chão ao levantar-se a cada manhã, então a vitória está praticamente ao alcance de suas mãos. É só dar mais alguns passos de vendedor para se tornar um vencedor. Quase tão simples quanto trocar um d por um c.
“Eu sou e serei um vencedor sempre”. À frase, repetidas ta…

Traduções

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(Imagem: Pinterest, do álbum OMG-pink kitty (sarah))
Renovar. Inovar. Revirar o quarto, a casa, o mundo, a vida. Ver o avesso de tudo.
Foi com essa disposição que Margot começou o dia. O passo seguinte foi inverter os passos: calçou as sandálias de borracha em pés trocados, apesar dos apelos recheados de pelamordedeus da mãe, que saiu à procura do telefone do psicólogo. O pai limitou-se a franzir a testa.
Respondendo de pronto à segunda chamada daquele impulso revolucionário, a adolescente escancarou as portas do guarda-roupa e fez desabar um everest de roupas, culminando a avalanche com um poncho de flanela.
- Mãe, como é que usa isto?
Cabeça enfiada dentro da bolsa, a mãe ainda procurava o cartão do psicólogo. Optou por uma trégua e pela negociação.
- Veste por cima, o poncho fica sobre os ombros... Como uma capa.
De frente para o espelho, Margot teve a impressão de que usava um babador. A peça era pequena, havia sido de seu pai quando criança. Olhou bem, virou-se para um e outro lado, até…