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O telefone toca. Minha leitora de quase duas décadas reaparece da névoa de silêncio e assombro que anda envolvendo pessoas com responsabilidade e experiência de vida. De um fôlego só ela desata os motivos de seu sumiço: - Sumi de todo mundo. Agora explico, porque já dou conta de, literalmente, falar. Conhecendo um pouco da rotina de quem fincou raízes lá pelo Planalto, apuro os ouvidos para colher um desabafo que, imagino, tenha a ver com radical reforma da casa: arquitetos e decoradores, fornecedores de vidros especiais para a fachada, remodelação do jardim, substituição do equipamento da piscina e da churrasqueira... - Surgiu-me um problema no pé, que evoluiu para infecção inesperada. Com isso, tive que andar pulando feito saci para ir ao banheiro. De resto, repouso absoluto. - Que coisa, hein? – rebati, antes de seguir ouvindo os tais motivos do longo desaparecimento. Ela prosseguiu: - O estresse da imobilidade despertou minha insuficiência respiratória, algo como uma…

Ciência, Modéstia e Fé

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Desejando investigar a estrutura do universo em larga escala, os físicos Stephen Hawking e Roger Penrose criaram, na década de 70, um ramo da física – o da Relatividade Geral Global. Nele se especializou o físico e matemático norte-americano Frank J. Tipler que, numa entrevista à imprensa, disse que era “um ateu convicto” quando começou a carreira de cosmologista, em meados da década de 70. “Nunca em meus sonhos mais ousados”, prosseguia ele, “imaginei que escreveria um livro para demonstrar que as afirmações fundamentais da teologia judaico-cristã são, de fato, verdadeiras. Muito menos que estas afirmações são deduções diretas das leis da física, como nós as entendemos atualmente”. Também cientista, o físico e escritor britânico Paul Davies escreveu, em O Universo acidental, que descobertas sobre o Cosmo primitivo “obrigam-nos a aceitar que o universo em expansão foi posto em movimento com uma operação conjunta de impressionante precisão”. A estes se junta John Whee…

O Patrono

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Asas

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"Cisne" - Melissa Travagini, em Histórias de uma bailarina
Foto: Augusto César



A Ciência anuncia que as abelhas já demonstraram não apenas saber contar: elas também compreendem a 'ausência' das coisas como quantidade numérica. Ou seja, nenhum ou zero. Relatado em publicação científica, o teste até então havia sido aplicado apenas em primatas e um pássaro – um papagaio africano de nome Alex.
Trabalhando duro pela própria sobrevivência e pela nossa, as abelhas rendem bilhões de dólares, por exemplo, aos cultivadores de amendoeiras na Califórnia, Estados Unidos. Mais: vão além, quando se tornam fundamentais no passo inicial para a compreensão do relacionamento entre pássaros e seres humanos. Várias gerações de africanos são parceiros de aves selvagens de família específica, quando o objetivo é encontrar ninhos e mel de abelhas. A evolução na análise desse especial relacionamento tem permitido o avanço no conhecimento a respeito da dinâmica dessa comunicação.
A Ciência nã…

Primeiros Socorros

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Sob o comando da mídia, cujo poder de sedução já foi irresistível, parte do país ensaia gritos de emoção com a bolinha que rola nos gramados russos. A outra parte tenta encarar a vida e seus problemas, criados e recriados como o trabalho de Sísifo, o mitológico grego condenado a empurrar montanha acima uma gigantesca pedra de mármore, que voltava ao ponto de partida sempre que ele se aproximava do cume.
Enquanto isto, a malemolência encobre o oportunismo espertalhão que reajusta tabelas de preços e redimensiona custos. Como, por exemplo, os de planos de saúde, cujos usuários, ainda resistentes e de fôlego curto, se perguntam até quando líderes e governantes dispensarão aos cidadãos um tratamento de quinta categoria.
Na fila do banco (sim, porque ainda existem longas filas nas agências, apesar da tecnologia), a queixa é recorrente quanto ao que se colhe após uma vida de trabalho digno e honesto, pagando impostos e regrando miudezas. No caso da saúde, sobra indignaçã…

Atraso sobre rodas

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O silêncio da madrugada é interrompido por um som como o do voo de um zangão. Vai aumentando até lembrar o de um monomotor em baixa altitude, mas logo se transforma em um ronco ensurdecedor, que faz vibrarem os vidros nas esquadrias das janelas.
O engenho de onde sai o estrondo apocalíptico é uma motocicleta, pilotada por um vulto cinzento emborcado sobre o tanque de gasolina. Talvez para certificar-se de que estivesse mesmo no comando da máquina, o piloto aciona a embreagem e acelera o motor ao limite, no que motociclistas conhecem como ‘cortar o giro’. Em seguida, vulto e máquina desaparecem na escuridão, deixando para trás uma janela que se ilumina, uma criança que chora, o latido de um cachorro e, sabe-se lá, muitos sonos e sonhos interrompidos.
É natural a humana vontade de aparecer, de partilhar nossas conquistas. Na fase adulta, a maioria de nós consegue conter esse impulso no limite do razoável, mas segundo Freud, o exibicionista patológico é incapaz de faz…

Negócios

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Aos dez anos de idade Lorena já se preocupava com os negócios. Empurrada pela sabedoria do pai, um comerciante habilidosíssimo para quem a vida exige “esperteza e ousadia”, abordou certo dia a professora de balé:
- Mel, estamos produzindo pulseirinhas para vender. São uma graça.
- Estamos? – surpreendeu-se a professora.
- É, estamos. Eu e minhas amigas temos uma empresa.
- Uma empresa?
- É, uma empresa. Fazemos pulseirinhas de dois modelos, e vendemos um a 50 centavos, e outro a um real.
Sem saber como reagir, a professora encarou aquela revelação com a naturalidade de quem tivesse meia dúzia de alunos da mesma idade voltados ao empreendedorismo.
Com a fisionomia carregada, Lorena seguiu em frente:
- O problema é que estamos enfrentando o jogo sujo da concorrência...
A professora arregalou os olhos:
- Con-cor-rên-cia?
- É, con-cor-rên-cia – a menina imitou Mel, pulando de cima do banquinho alto onde estivera encarapitada. – A outra empresa, quando viu nosso trabalho, passou a …