domingo, 17 de junho de 2018

Atraso sobre rodas


(Imagem: Pinterest)

O silêncio da madrugada é interrompido por um som como o do voo de um zangão. Vai aumentando até lembrar o de um monomotor em baixa altitude, mas logo se transforma em um ronco ensurdecedor, que faz vibrarem os vidros nas esquadrias das janelas.

O engenho de onde sai o estrondo apocalíptico é uma motocicleta, pilotada por um vulto cinzento emborcado sobre o tanque de gasolina. Talvez para certificar-se de que estivesse mesmo no comando da máquina, o piloto aciona a embreagem e acelera o motor ao limite, no que motociclistas conhecem como ‘cortar o giro’. Em seguida, vulto e máquina desaparecem na escuridão, deixando para trás uma janela que se ilumina, uma criança que chora, o latido de um cachorro e, sabe-se lá, muitos sonos e sonhos interrompidos.

É natural a humana vontade de aparecer, de partilhar nossas conquistas. Na fase adulta, a maioria de nós consegue conter esse impulso no limite do razoável, mas segundo Freud, o exibicionista patológico é incapaz de fazê-lo. Para os antropólogos sociais, somos seres que tentamos enfrentar a vida numa moderna cidade grande equipados com um cérebro social da idade da pedra. Todos lutamos contra o anonimato.

Já o sociólogo e psicanalista Jackson Buonocore vê as faces do exibicionismo ligadas ao sentimento de inferioridade, à necessidade de chamar a atenção alheia para mostrar que se tem sucesso, fama, dinheiro, carros, títulos ‘ou até mesmo capinhas de celular’. Para ele, a era do exibicionismo sofre pressão da grande mídia, que vende a ilusão do consumo, mas silencia quanto ao seu custo, traduzido em aumento da ansiedade e da angústia, além do endividamento financeiro.

“Escape barulhento, filho pentelho e pum a gente só aguenta os nossos”, escreve o motociclista Geraldo Tite Simões. E segue: “Aquele papo de que escape barulhento salva vidas é uma baita conversa fiada, porque o resto da cidade tem nada a ver com seu medo de pilotar”. Ainda segundo Tite Simões, a teoria de que escapamento barulhento salva vidas foi criada nos EUA há 60 anos, mas mesmo lá hoje isso já foi desmistificado.

Quando o romancista nigeriano Bem Okri, segundo o diretor do British Museum, Neil MacGregor, escreveu sobre uma escultura africana de meados do século XV – a Cabeça de Ifé – disse que ela produzia nele o efeito de certas esculturas do Buda. “A presença da tranquilidade em uma obra de arte”, prossegue Okri, “revela uma grande civilização interna, porque não se adquire tranquilidade sem reflexão, sem fazer as grandes perguntas sobre nosso lugar no universo e encontrar respostas razoavelmente satisfatórias. Para mim, civilização é isso”.

Inevitável refletir sobre civilização, enquanto processo de aquisição de valores que definem o desenvolvimento de uma sociedade, e a falta dela. Ou que significado poderão ter as palavras ‘reflexão’ e ‘civilização’ para uma cabeça metida num capacete e que, sobre duas rodas, faz explodir em roncos e estrondos sua afinadíssima máquina de fazer barulho.

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Penso que os extrovertidos são pessoas que apresentam perfil efusivos, emocionais, exibicionistas e instáveis. E, acima, de tudo, muitas vezes 'sem noção' de que estão se passando por medíocres! Até porque, minha extroversão vai até ao ponto em que se esbarra no limite do outro. O respeito sumiu das ações individuais, infelizmente!
Abraço.

Marcos disse...

Esses já criando uma nova categoria, os EXIBIOSCICLISTAS. Parece crescer mais rápido que Motociclistas.

Artes e escritas disse...

Por aqui, não. Todo barulho ou som é respeitado porque, onde moro, já presenciamos pouso de helicóptero na praça, incêndio e assalto à banco; nada de exibicionismo. Um abraço, Yayá.