sábado, 19 de maio de 2018

Negócios


(Imagem: Pinterest)

Aos dez anos de idade Lorena já se preocupava com os negócios. Empurrada pela sabedoria do pai, um comerciante habilidosíssimo para quem a vida exige “esperteza e ousadia”, abordou certo dia a professora de balé:

- Mel, estamos produzindo pulseirinhas para vender. São uma graça.

- Estamos? – surpreendeu-se a professora.

- É, estamos. Eu e minhas amigas temos uma empresa.

- Uma empresa?

- É, uma empresa. Fazemos pulseirinhas de dois modelos, e vendemos um a 50 centavos, e outro a um real.

Sem saber como reagir, a professora encarou aquela revelação com a naturalidade de quem tivesse meia dúzia de alunos da mesma idade voltados ao empreendedorismo.

Com a fisionomia carregada, Lorena seguiu em frente:

- O problema é que estamos enfrentando o jogo sujo da concorrência...

A professora arregalou os olhos:

- Con-cor-rên-cia?

- É, con-cor-rên-cia – a menina imitou Mel, pulando de cima do banquinho alto onde estivera encarapitada. – A outra empresa, quando viu nosso trabalho, passou a fabricar também a mesma pulseirinha, porém de um só modelo.

Lorena explicou erguendo o dedo indicador da mão direita, quase tocando com ele a ponta do nariz da professora. Mel, por seu lado, foi logo adiantando que concorrência é algo saudável para a economia, quando exercida com lealdade.

- A gente sabe – a menina atalhou. – Só que não é nada leal, porque eles fabricam as pulseirinhas e dão elas de graça para quem quiser. E só fazem um modelo, mas nós fazemos dois.

Mel seguia dissimulando a surpresa, enquanto Lorena fazia um V com dois dedos, separados pelo nariz da professora:

- Sabe como resolvemos o problema? A gente “ganha” as pulseirinhas da concorrência, desmancha uma por uma e aproveita o material para fazer a nossa.

- Sei...

O orgulho de Lorena pela “solução” encontrada só não recebeu aplauso ali, na hora, porque a professora disse ter ouvido a respeito de substâncias cancerígenas no material das tais pulseiras. Logo foi interrompida:

- Nossa empresa já resolveu isso também. As pulseirinhas vão acompanhadas de uma fita especial sobre a qual elas devem ser usadas, evitando o contato com a pele.

Fazendo uma pirueta com a mesma habilidade paterna para os negócios, Lorena piscou um olho para a professora e deu um sorriso:

- Gostou, Mel?

(Repost - Editado)

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Que delícia ler uma crônica dessas, Eduardo, em momentos tão absurdamente impróprios para nossas crianças! Obrigada, pelo momento!
Abraço.

Pedro Du Bois disse...

Excelente abordagem e desenvolvimento do texto. Mais uma vez, parabéns. Abraços.

Artes e escritas disse...

Bom texto para que se discuta a responsabilidade social de uma empresa, onde, na embalagem, deve conter os perigos a que expõe as pessoas. Sempre que compro uma pilha, daquelas redondas e radioativas, pergunto-me se não deveriam vir com manual de instrução sobre o uso adequado. Um abraço, Yayá.