quinta-feira, 30 de março de 2017

Lágrima possível

(Imagem: Pinterest)

O velho que morre num quarto de hotel, esquecido e só, é imagem cinematográfica e persistente. É a ela que recorro, indagando se não deveríamos trazê-la viva na memória. Uma tentativa de nos aquecermos por dentro, evitando a pedra em que nossas urgências vão nos transformando.
O escritor Chico Lopes é quem nos traz essa palavra aflitiva. Nada lhe parece mais tenebroso do que uma morte solitária. Há velhos que morrem assim em quartos de hotéis, em filas de desassistidos, sob as pontes, nos asilos, nas casas de repouso, nos hospitais. Tantos passam pela vida sem deixar rastros, lembranças, sinais. Sem deixar nada. Vão como vieram: anônimos e sós, completamente sós.
Pesquisa feita em Portugal revelou que é em épocas festivas, como Natal e fim de ano, que pessoas costumam abandonar seus velhos em asilos e hospitais. Adiam um incômodo resgate de forma a usufruírem, com tranqüilidade e sem atropelos, os momentos de celebração e alegria. É como o sujeito que não quer se aborrecer no feriadão porque não pagou a prestação vencida. Isto é assunto para se enfrentar na retomada da escravidão, nos dias cinzentos de trabalho. Isto é assunto de segunda-feira.
Existem tantas definições, tantos rótulos para esse mistério insondável que é a vida. Há sabedorias que a definem como escolhas, momentos, recomeços. Dizem também que vida são acertos e erros, opiniões, oportunidades, som e luxúria, caminhos... Mistério que se banaliza num mundo de 'pequenos nadas', onde somos levados a valorizar ícones e paixões. O menisco estourado do craque da bola vale muito mais do que a experiência e a vida do tal velho que morre solitário num quarto de hotel.
O mercado olha para o idoso com arremedo de comiseração, entrevendo uma fresta para vender excursão, remédio e empréstimo consignado. Fora isso, velho é dor de cabeça. O analgésico é levá-lo para a fila dos maiores de 60 anos. Ou dar-lhe passagem gratuita no transporte urbano. Benesses, favores ao invés de reconhecimento e respeito.
São ruidosos os guizos que a TV agita ao nosso redor. Eles nos fascinam e nos inebriam. Fazem-nos esquecer nossa finitude, tão certa e pronta. Nosso amanhã de provável solidão. Na telinha, nossos dramas são, a um só tempo, glamurosos e voláteis. Passados poucos dias do último capítulo, e já não seremos capazes de nos lembrar do título da novela. Logo virá outra, e outra...
E se em alguma delas nos depararmos com o tal velho solitário morrendo num quarto de hotel, aí, sim, talvez a cena nos arranque alguma lágrima.

(Repost - Reeditado)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Faro amigo


(Imagem: MTLR)

Em cima da cama do casal, ela lixava pacientemente as unhas enquanto ele, entediado, assistia o telejornal na sala. A quitinete só não era um forno de padaria porque ela abrira a porta envidraçada, que separava o quarto de uma diminuta área externa.
- O Barata, amor! Acho que vi o Barata na tevê, aquele safado...
O Barata era o canalha travestido de corretor de imóveis e que aplicara nele, e em mais meia dúzia de sonhadores com a casa própria, um golpe que os deixara sem dinheiro e de muito mau humor.
- Hum-hum... – ela gemeu lá do quarto, enquanto esticava o pescoço para ver o que o Piquê tanto farejava na tal área externa. A descoberta acabou num grito:
- Aiii, barata amor!
- Pois é, o picareta... Acho que era ele. A cena foi rápida, mas eles vão mostrar de novo a entrevista com o técnico. O safado estava logo atrás, dando uma de papagaio-de-pirata...
- Né não, amor. É barata bicho. O Piquê tá lá brincando com ela...
- O quê? É o Barata, aquele corretor pilantra...
Ela bateu com força a porta envidraçada, deixando do lado de fora o cachorro e a barata. Em seguida, deu dois passos e chegou até a sala.
- Amor, presta atenção: é barata, tem que matar...
Ele concordou, sem desviar os olhos da tevê.
- Dá vontade mesmo, viu... Se não fosse crime, eu ia ser o primeiro a torcer-lhe o pescoço.
Mais um passo, e ela já se posicionara entre ele e o aparelho de tevê. Agarrando o marido pelos ombros, sacudiu-o até que seus óculos saltaram da ponta do nariz, indo parar no chão.
- Nossa, amor, isso tudo é raiva do Barata?
- É, mas é DA barata. Barata bicho, que tá lá fora. O Piquê...
- Ah, tá – ele resmungou, afastando com o braço a mulher da sua frente. – Daqui a pouco eu vou lá.
Ela fez uma careta engraçada e franziu o nariz. Depois voltou para o quarto caminhando na ponta dos pés, como se o chão da sala estivesse coberto de insetos. Perto da porta, esticou o pescoço e viu o cachorro deitado num retângulo de sombra, a poucos centímetros da barata cascuda, que se fazia de morta numa quina de parede. Com extrema cautela, abriu uma fresta e chamou o cachorro, que entrou agitado. Ela reagiu:
- Piquê, para de ficar pulando em mim com essas patas de barata...
Depois de lavar e desinfetar com álcool as patinhas do cachorro, ela insistiu:
- Amor, não esquece não, viu?
- Ahn?
- A barata, amor! Ela ta lá, mexendo aqueles chifres enormes...
Ele continuava só atenção para o programa esportivo na tevê. Ela então enroscou-se sob um fino lençol e, antes de cair no sono, emitiu, lá das profundezas de sua caverna, um grito abafado:
- A barata, amor!
Acordou no meio da madrugada com o ronco do marido. Acendeu a telinha do celular tentando, em vão, enxergar através do vidro da porta. .
- Amor, acorda!
- Ahn?
- A barata, amor. Você não esqueceu de matar ela não, né?
Ele resmungou algo como “era ele não”, virou-se para o outro lado e desmaiou de novo.
Precavida, ela tirou do chão os chinelinhos e os colocou ao alcance das mãos, sobre a mesinha de cabeceira, antes de pegar no sono novamente.

(Reeditado)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Super o quê, mesmo?

(Imagem: Pinterest

 


Há tempos, pesquisando jornais antigos no Arquivo Público Mineiro, dei com o resultado de uma enquete realizada em escola estadual de Belo Horizonte na década de 30. Foram ouvidas crianças de ambos os sexos, com idade entre 11 e 13 anos – todos, alunos do então 4º ano primário. O objetivo era conhecer melhor os interesses dos jovens.

Tarzan, o super-herói da época, era apontado por apenas três dos pesquisados como o modelo a ser imitado. É claro, citavam-se outros paradigmas, sobretudo atores e atrizes do cinema e gente da música. Porém, a referência de vida para a maioria eram então os próprios pais.

Feitas hoje, enquetes semelhantes talvez surpreendessem pelos seus resultados. Nossos super-heróis não são mais quem se esfalfa pela sobrevivência honesta e digna da família. Para preencher o vazio de caminhos seguros aos que, muito cedo, conhecem descaminhos, há atualmente extraordinária variedade de personagens bizarros e opções de consumo.

De outro lado, é tentador supor sobrancelhas erguidas pela suspeita de que educar, associando conhecimento a princípios morais e éticos, seja o atalho para tolher a liberdade de escolha. Afinal, quem educa é o Estado, ou a família é parte indissociável nesse processo?

Em esclarecedora entrevista a O Globo, o filósofo Bernard-Henri Lévy lamenta o avanço dos Estados democráticos na direção errada: a do populismo e do niilismo. "Hoje, a mentira e a verdade tem o mesmo status, e é muito difícil distinguir uma da outra", acrescenta ele.

Teleguiados, é possível que boa parte de nós deixe escapar pedido como o que fez o papa Francisco, para que os fiéis carreguem e leiam a Bíblia como se fosse um celular. Sua Santidade não o disse naquela ocasião, mas poderia ter sugerido também que se cultuem menos ídolos e super-heróis, substituindo-os, por exemplo, pela presença de um crucifixo em casa de quem tem fé ou anda precisando dela. 

É, desde sempre, a única saída. Sobretudo para os tempos de enrosco em que nos metemos.