quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mãos, chapéu e pires


(Imagem: Google Images)

Crowdfunding.

Andreia acenou a palavra lá do outro lado do oceano. Trata-se de operação destinada a obter recursos para iniciativas de amplo interesse. A fonte, em geral, são pessoas físicas interessadas no objetivo final proposto. Resumindo, é um financiamento coletivo.

“Financiamento” é palavra de brilho ainda sedutor, embora possa sugerir cautela, desconfiança. Em muitos casos é armadilha. Já “interesse” é locomotiva de força descomunal, que se debilita quando atrelada a “coletivo”. A composição assim rasteja, desvia-se com facilidade do caminho original, para enveredar-se num cipoal indevassável de argumentos, evasivas e ... outros interesses.

Vestido com tão bem talhado traje, o tal financiamento coletivo assume alto posto, muito distante das mãos aflitas que clamam por seu socorro. Venal e insensível, o crowdfunding vez ou outra concede o beneplácito de sua atenção a quem lhe é recomendadíssimo. Ou consegue tocar-lhe o inalcançável bolso – proeza que só poucos e hábeis falantes conseguem cumprir.

É certo que mãos aflitas não nos faltam, sobretudo num Brasil de mãos agilíssimas e impunes de um lado, e cada vez mais violentas de outro. Da planície, tantas acenam para um crowdfunding tutelado reverentemente por mãos que escolhem e afastam, que acumulam e despedem.

Muitas dessas mãos estendidas são as da Cultura, em suas mais diversas manifestações, na arte ou no esporte: pintores, músicos, escritores, atores, compositores, coreógrafos, bailarinos, atletas... Para a maioria dessa gente, o crowdfunding é quase uma ficção.

O ex-piloto japonês de Fórmula 1, Kamui Kobayashi, só pôde correr pela Caterham em 2014 porque arrecadou, em doações dos fãs em apenas um ano, o então equivalente a quase 6,5 milhões de reais através de uma seção criada em seu site pessoal. Tanta generosidade em tão pouco tempo, entre nós, só é possível a determinadas figuras notórias, condenadas em última instância pela Justiça e mais ou menos mantidas ainda atrás das grades.

Quem cria, se esforça e produz arte no Brasil está fadado à mendicância, a conviver com um pires em uma mão e o chapéu na outra. Incentivos a partir de recursos públicos, na realidade, costumam ser mais eficazes como bandeiras políticas que distribuem migalhas, para cobrar retribuição em apoios e votos.

Minha leitora d’além mar é, assim, valorosa e otimista combatente nesse mundo das letras. Não só porque parece olhar com interesse para o crowdfunding, mas também porque distribui sua arte em papéis dobrados e aparentemente perdidos em locais públicos, atraindo dessa forma a curiosidade do leitor.

Independente de quanta seja a reserva de esperança no crowdfunding para montar e levar a público um bom espetáculo ou publicar e comercializar um livro, por exemplo, é útil ao esperançoso ter livre uma das mãos para acenar pedindo ajuda, sem deixar de levar um pires na outra.

E, compondo digna e prudentemente a figura, ter um chapéu na cabeça.


(Repost - Editado)

3 comentários:

Célia Rangel disse...

A que situação chegamos, não é mesmo? Termos que "esmolar" pela e para a Cultura em um país em que se cultua "o roubo aos pires e chapéus", sem nenhuma dignidade... Isso se houvesse o mínimo da mesma.
Abraço.

Andreia Azevedo Moreira disse...

Um grande abraço, Eduardo. :-)

Maria Teresa Hellmeister Fornaciari disse...

Triste tudo isso. Cultura relegada ao mundo da mendicância...