domingo, 18 de junho de 2017

Lembrar, lembrar...

(Imagem: Pinterest)

Esquecer todo mundo esquece. Uns mais, outros nem tanto. Porque memória mesmo, só de computador e elefante.

O chip já é a secretária mais eficiente e barata do mundo. Diferente daquela de quem se lamentava um executivo, lembrado do que queria esquecer e não do que precisava lembrar.

Depois de compromisso e guarda-chuva, que é mais fácil esquecer-se do que de sonhos? Há quem acorde na madrugada e, papel e lápis à mão, anote o que vinha sonhando. Apesar de não fazer qualquer sentido a maior parte do que se ‘viveu’ dormindo.

Esquecem-se lugares como estações ferroviárias, cidades... Na China existe Ordos, projetada para ter um milhão de habitantes, mas que não chega a ter mais do que alguns mil moradores.

Do pessoal da ginástica vem o alerta: embora não se esqueçam das novelas, as mulheres deixam passar em branco os músculos superiores, como bíceps, costas, trapézio e tríceps.

Há time de esquecidos, como o de ex-famosos: jogadores, atores, cantoras, políticos, benfeitores e malfeitores. Todos acabam na escuridão onde se recolhem promessas, desejos, antepassados, perguntas e respostas, amores e desamores. Otto Lara Resende escreveu sobre o sujeito que, burocrata de carreira, descobriu certa manhã que não se lembrava de como dar o nó na gravata.

Esquecimento já ajudou a fazer história. A pedido de D. João V, rei de Portugal (João Francisco Antônio José Bento Bernardo de Bragança, cognominado O Magnânimo), o Vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Meneses, encarregou-se de reunir informações sobre a colônia para a composição da História de Portugal. Para isto, tratou de fundar aqui, em abril de 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos.

Atestam os registros que o nome da academia teve origem no desencanto de seus membros, que esperavam ser chamados para compor os quadros da Real Academia de História Portuguesa, fundada pelo próprio D. João V e extinta 56 anos mais tarde por falta de atividade. Quanto à dos Esquecidos, sobreviveria apenas por 18 meses.

Além de remeter a título de filme e nome de bolinho em Portugal, esquecimento tanto significa o perdão como assinala a ingratidão.

Consolo mesmo acaba vindo pelo canto do salmista, para quem o Senhor tem compaixão dos que o temem ‘e não se esquece de que somos pó’ (Sl 102, 14).

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Ainda bem que hoje, além de 'chips' valiosos... guardamos tudo 'na nuvem' e não me venham falar que ando com a 'cabeça nas nuvens'... Até porque é 'vero'... Detox mental é ótimo!
Abraço.

Almir Albuquerque disse...

Esquecer faz parte do processo de lembrar. Afinal não podemos guardar tudo e algumas coisa precisam ser selecionadas.

O peoblema está precisamente no selecionar. Memória seletiva não faz jus à verdade como se costuma pensar de forma tão irrefletida.

Toda seleção precisa de escolha, descarte, e tanto a memória individual quanto a nacional estão repletas de escolhas pessoais, políticas, ideológicas... Que precisam ser criticadas.