sexta-feira, 26 de maio de 2017

Diálogo

(Imagem: Pinterest)

Ela saiu do show de regaeton e permaneceu nas nuvens. Passou por dois ou três barzinhos até conseguir finalmente aterrissar, com o dia já nascendo. Dirigiu-se ao ponto de ônibus, onde ele se distraía com o celular enquanto aguardava condução.
- Aê tio, tava no show?
O homem assustou-se, mas disfarçou:
- Show? Que show?
- Tá me trollando, cara? Do DC Pow e da Luana Pê...
- De quem?
Ela encarou o interlocutor com um olhar, primeiro de surpresa, depois de desconfiança. Deu um muxoxo e escapou pelo celular. Ele insistiu:
- Essa tal de Luana é uma atriz de novela, né não?
- Eu shippo a Luana e o Pow porque a Luana é destruidora.
- O quê? Ela é black bloc?
- Cara, ela lacrou nas respostas que deu pro safadão do ex dela – ela disse ignorando a pergunta, apertando os olhos e sacudindo os braços.
- Taí, também curto o Safadão...
Silêncio. Voltando-se para o lado oposto, ela escondeu um sorriso de deboche.
- Ô busão que demora! Mó caô, aê: showzaço desse e a galera sem busão... – queixou-se.
- E esse tal de Pow, hein? O cara é bom? – o outro perguntou, na expectativa de não deixar morrer aquele fiapo de conversa que, sabe-se lá, poderia levá-los a um fim de noite agradável.
- Se o Pow é bom? Se existe alguém que dispensa um melhore é o Pow... Ele é crush. Quando sorriu pra mim eu fiquei morta.
- A melhor dupla, pra mim, é Zé Ricardo & Ezodracir. Tem igual não, viu? – entusiasmou-se o homem.
A fã do DC Pow e da Luana Pê fez careta de horror e resmungou entredentes um ‘seje menas’. Sem dar pela coisa, o outro prosseguiu:
- Eles cantando Roteiro de um Amor Amorzão é demais. Quem sabe essa Luana e o tal do Pow aí não gravam essa música, né? Se eles são bons como a gata tá falando...
A gata sorriu sem vontade, esquivou-se da mão cabeluda que já pousava em seu ombro, e nem se preocupou em disfarçar o desagrado. O outro entendeu o sorriso como aquiescência e a recusa como charme.
- Que tal se a gente fizesse nosso showzinho – eu no papel do tal de Pow apaixonado e você, no de Luana sonhadora? – o homem propôs com voz suave.
- Aê, tu fica aí batendo cola, mas tá na alta que não vai ter beira, tio... É o pu do pu da puca.
Dito isto, a gata deu um tchauzinho com a mão esquerda, enquanto a direita fazia sinal para o busão.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Teleburrice


(Imagem: Fran Carneros, em Pinterest)

Houve um tempo – e nem está tão distante assim – em que, para uma agência de publicidade, o cliente era rei, e seu mercado, um reino sagrado. Desdobrava-se, dava-se a cara a tapa, engoliam-se sapos de todos os tamanhos para manter a conta e ver o sorriso de satisfação na cara de quem, na visão de Ogilvy, fazia tilintar a caixa registradora.

Esse tempo virou passado. Salvo as exceções de praxe e que confirmam a regra, o que se percebe repercute como rispidez e falta de profissionalismo de parte a parte. Insinua-se nesse cenário uma espécie de vale-tudo, onde o que forra o chão da arena é o pobre consumidor sobre quem, excluído o bolso, se pisoteia à vontade.

No Brasil, consumidor e eleitor se aproximam nas dores e nos desencantos. Sobre o lombo de ambos costumam desabar as chibatadas da mentira, da manipulação e do desrespeito. Tudo estimulado por leis que não pegam ou, se pegam, são contornáveis como a lengalenga fácil com que se distrai uma criança de sua teima.

Estas considerações vêm a propósito de algo denominado telemarketing – uma ferramenta transformada em arma de destruição da imagem de quem não se importa com o desconforto que proporciona ao cliente. Aliás, o objetivo parece ser esse mesmo: azucrinar, irritar o cidadão que paga as contas até vê-lo pelas costas. Maneira eficaz de atacar a concorrência, desafiando o mercado prisioneiro de pegadinhas nas quais tropeça o pobre consumidor. E, como tantas vezes se tem visto, sob as bênçãos da autoridade complacente e cercada de burocracia, cuja disposição para aplicar sanções aos grandes faz lembrar aquelas espingardas que cuspiam uma rolha amarrada num cordão preso ao brinquedo.

Há cerca de 120 dias venho desatendendo e anotando, pacientemente, números que ligam para minha casa, assim como datas e horários em que acontecem as chamadas, com intervalos que chegam a até dois minutos entre uma e outra. E se dou publicidade a um determinado número, as ligações passam a acontecer temporariamente a partir de números diferentes – códigos binários e combinações de 11, 12, 13 e até 14 dígitos. Atendida alguma chamada, ou desligam, ou a fonte é identificada como banca de telemarketing que liga em nome de determinada empresa. Colocada em pesquisa do Google, uma combinação numérica levou a site de reclamações onde o nome que aparece é o de operadora de telefonia.

Se há um código de ética a ser seguido e leis a serem respeitadas pelo telemarketing, isto não está valendo – e não é de hoje, a julgar pelas operadoras que lideram o ranking das reclamações junto aos Procons.

Pergunto-me então que tipo de profissional de comunicação (se é que existe) estaria atendendo essa gente...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mudança

(Foto. Mariana Pietrobon)




Mariana publica em rede social, foto da bagagem que leva de mudança para outra casa, outro esconderijo para seus sonhos e sua solidão, suas lembranças e suas saudades. Diz que segue para um destino feliz, deixando para trás um lugar onde não foi muito feliz, nem muito triste.

Mudar-se é também deixar e carregar saudades. Casas vazias se parecem um pouco com ferrovias: evocam histórias, dizem de mudanças. Sobretudo quando se vai como Mariana, de quem sei de lágrima recente.

Os dias contam que não ser muito triste já equivale a ser feliz. Até porque, à exceção de Deus, nada e ninguém é perfeito.

O casal de velhos meus vizinhos anunciou que partiria de volta à terra natal, no Nordeste. Passa o tempo, e a permanência de ambos por aqui ganha jeitão de mudança – mas de planos. O que ao menos retarda a visão de uma casa silenciosa e vazia, onde tantas vezes a família se reuniu em alegres celebrações.

Mudança é ainda recomeço que faz morrer aos poucos tristes lembranças, transformando dores em chama de luminosa esperança. Este, o rastro que deixamos e que vale a pena ser seguido.

Antevejo o adeus de Mariana. Já lhe percebo as pegadas em flores coloridas, que ela diz retirar das lições e percalços da vida.

Aceno então de coração para aquela que, espero, seja a mais feliz das Marianas.