sábado, 29 de abril de 2017

Horizontes

(Imagem: Pinterest)


Atingida pelo tsunami de 2004, uma pequena cidade japonesa proporcionou naquela ocasião uma cena curiosa: um sobrevivente da catástrofe, de olhos fixos na linha do horizonte sobre o mar, mantinha-se vigilante tendo ao lado, imóvel, um seu semelhante. Encharcados ambos, o primeiro achegou-se ainda mais do outro ante a aproximação do cinegrafista.
Os dois personagens eram cães. O 'guardião' trazia no pescoço uma coleira e, por trás do focinho, um olhar de cão sem dono. A narração dava conta de que os animais seriam encaminhados a local apropriado, onde receberiam os cuidados necessários.
Naquela mesma semana outro cão protagonizaria cena notável, desta vez no Brasil. Assassinado provavelmente por grupos de extermínio que a polícia paulista ainda investigava, Cabeludo, um morador de rua, teria aos pés de seu cadáver um cachorro que não apenas impediria que alguém se aproximasse, como tentaria reanimar o dono lambendo-lhe as pernas.
O notável estreitamento no convívio entre seres humanos e seus animais de estimação cutuca a imaginação: acaso o fenômeno não seria também resultado do crescente desencanto com nossos semelhantes? Pesquisas já apontaram a existência de mais clínicas veterinárias do que hospitais no país. Igualmente vigorosa é também a expansão do setor de pet shops, e é possível que jamais se tenha dado tanta ênfase a campanhas em favor da adoção de animais como hoje.
Pela média, os anos de uma vida humana deixam atrás de si assustadora devastação na natureza. E isto inclui animais, de estimação ou não. Porém mesmo podendo pouco em relação à imprevisível e dominadora criatura, eles acabam tendo seu dia de caçador.
Ao tentar imitar um lobo em representação teatral, um estudante alagoano levaria acidentalmente um tiro do amigo que interpretava o caçador.
Procurando aninhar-se, uma galinha faria disparar uma espingarda abandonada pelo dono na localidade de Acarigua, na Venezuela. A bala atingiria o pulmão do descuidado, cujos revoltados familiares se vingariam da penosa mandando-a para a panela.
Cientistas asseguram que o futuro será dos insetos. Até lá, seguimos tentando nos comunicar melhor com os animais. Já se criou no Japão, aparelho que capta e interpreta latidos e outros sons de um cão, enquadrando-os nas categorias feliz, triste, de prontidão, frustrado, carente ou assertivo. Definido o estado emocional do totó, uma frase pertencente àquela categoria é selecionada aleatoriamente e exibida numa tela.
Pendurado no pescoço de outros animais, ou preso a galhos de árvores da Amazônia, o equipamento certamente exibiria na telinha um pedido de socorro.

(Repost - Editado)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Diante de tal realidade... penso em abrir uma Clínica de Terapia para animais e seus donos... Haja paciência histórica, nos condomínios em que proliferam cães... latidos e suas necessidades fisiológicas! Filhos, netos não visitam seus idosos... Dão-lhes cães para se autossatisfação emocional.
Penso que nem os animais aguentam tal protagonismo... Horizonte nublado!
Abraço.