sexta-feira, 21 de abril de 2017

A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest, do álbum de Eliza Gramlich)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, no longínquo ano de 1988, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negaram ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, pouco mudou. Só a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca, é a mesma. Os exemplos são recorrentes, e o mais recente nos chega também pela tevê, que mostra o desespero dos familiares de uma paciente em crise, à qual foi negado atendimento em uma unidade pública de saúde de Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Motivo: os médicos estavam em greve pela falta do pagamento de seus salários.

Parece inútil implorar socorro diante de uma vida humana que se esvai. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir.

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza um prédio inteiro em solidariedade. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. Pessoa é gente. E gente é conjunto, é povo. E povo é massa.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

... E quem é que está preocupado com a pessoa/gente ou massa? Vivemos o cada um por si e ninguém por ninguém. Isso é fato. Penso em que tipo de história deixaremos editados nos livros de "História do Brasil" para nossos descendentes? A desfaçatez, a insensibilidade, o descaramento que nos cercam, fazem qualquer Pinóquio enrubescer e ter seu nariz hiperaumentado...
Abraço

Pedro Du Bois disse...

Excelente e oportuno. Abraços.