sexta-feira, 10 de março de 2017

Super o quê, mesmo?

(Imagem: Pinterest

 


Há tempos, pesquisando jornais antigos no Arquivo Público Mineiro, dei com o resultado de uma enquete realizada em escola estadual de Belo Horizonte na década de 30. Foram ouvidas crianças de ambos os sexos, com idade entre 11 e 13 anos – todos, alunos do então 4º ano primário. O objetivo era conhecer melhor os interesses dos jovens.

Tarzan, o super-herói da época, era apontado por apenas três dos pesquisados como o modelo a ser imitado. É claro, citavam-se outros paradigmas, sobretudo atores e atrizes do cinema e gente da música. Porém, a referência de vida para a maioria eram então os próprios pais.

Feitas hoje, enquetes semelhantes talvez surpreendessem pelos seus resultados. Nossos super-heróis não são mais quem se esfalfa pela sobrevivência honesta e digna da família. Para preencher o vazio de caminhos seguros aos que, muito cedo, conhecem descaminhos, há atualmente extraordinária variedade de personagens bizarros e opções de consumo.

De outro lado, é tentador supor sobrancelhas erguidas pela suspeita de que educar, associando conhecimento a princípios morais e éticos, seja o atalho para tolher a liberdade de escolha. Afinal, quem educa é o Estado, ou a família é parte indissociável nesse processo?

Em esclarecedora entrevista a O Globo, o filósofo Bernard-Henri Lévy lamenta o avanço dos Estados democráticos na direção errada: a do populismo e do niilismo. "Hoje, a mentira e a verdade tem o mesmo status, e é muito difícil distinguir uma da outra", acrescenta ele.

Teleguiados, é possível que boa parte de nós deixe escapar pedido como o que fez o papa Francisco, para que os fiéis carreguem e leiam a Bíblia como se fosse um celular. Sua Santidade não o disse naquela ocasião, mas poderia ter sugerido também que se cultuem menos ídolos e super-heróis, substituindo-os, por exemplo, pela presença de um crucifixo em casa de quem tem fé ou anda precisando dela. 

É, desde sempre, a única saída. Sobretudo para os tempos de enrosco em que nos metemos.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Eduardo! Parabenizo-o, mais uma vez, por uma postagem digna de circular em jornais tidos como "os melhores". Seu texto deixa-nos pistas de alta reflexão. Para mim, educadora, a família é quem educa; o estado deveria difundir cultura. Só que hoje, infelizmente, muitas estão esfaceladas pela ética e moral e nem sempre encontram suportes necessários para educar. Nossos jovens, classificados como geração Y ou Z e tatuados de "nem...nem" ficam à margem da sociedade à espera de "milagres"! E, nós que os geramos e os parimos estamos matando-os no ninho com nossos maus exemplos! Líderes? Onde encontra-los que não busquem privilégios próprios? Um texto que nos leva a inúmeras reflexões...
Abraço.