quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Simão Roncoso

 
(Imagem: Pinterest / Kyle Thompson)






Desde que teve por vizinho um sujeito dedicado a estranhas e barulhentas experiências extra-sensoriais nas madrugadas, Simão Roncoso passou a temer e pensar sobre o tema. Mais temer que pensar. Acordava no meio da noite, assustado, ouvindo sons estranhos. Eram ulos, lamentos, rangidos, zunidos e sussurros, alguns aterradores e que pareciam surgir ora debaixo da própria cama, ora do interior do armário ou de outra dependência da casa.
- Seu Roncoso, revirei e limpei tudinho há uma semana... – argumentava inutilmente a faxineira. Mas o patrão acenava com uma nota extra, e o argumento se desmanchava em sorrisos e boa vontade.
É verdade que Simão Roncoso tentava reagir com aparente naturalidade aos relatos tenebrosos que lhe fazia o Borges, colega de repartição, voltado a farejar desvios contábeis e mistérios do além em quase tudo.
- Olha aqui Roncoso – dizia o Borges. – Qualquer ruído que não possa ser identificado facilmente, tem enormes chances de ser uma tentativa de comunicação de origem profunda e misteriosa.
O tal do Borges falava essas coisas achegando-se cada vez mais próximo ao ouvido do apavorado interlocutor. Modulava a voz, dava-lhe um tom de advertência quase solene.
- Pode ser um EVP...
- Evepê?
- ...um Hum, o som do Apocalipse...
- Apocalipse? – agitou-se o Simão.
Aqui Simão Roncoso sentiu bambearem-lhe as pernas. Apoiou discretamente o cotovelo no balcão da copa, onde se refugiava para cafezinhos e conversa fiada no horário de trabalho. Consultou o relógio, alegou um motivo qualquer para sair mais cedo e desapareceu.
Em casa, não conseguiu pegar no sono. Levantou-se, percorreu os cômodos, acendeu luzes, verificou se estava tudo em ordem. Precavido, certificou-se de que a porta dos fundos estava trancada. Depois, trepado em uma cadeira, espiou o quintal pela fresta da janela.
De volta ao quarto, abriu os armários, bateu com o cabo do espanador (precaução, só) na fileira de cabides repletos de roupas e tranquilizou-se: afinal, a faxineira limpara tudinho.
Na manhã seguinte, Simão rumou para o escritório decidido a não mais pensar no assunto: daria um basta às conversas do Borges sobre Apocalipse e mistérios insondáveis. Ficasse aquele sujeito, com suas lucubrações, bem distante dele.
No elevador, saudou o ascensorista com entusiasmo e tapinha nas costas. O homem respondeu constrangido, diante daquela manifestação incomum de cortesia.
Já em sua sala, Simão Roncoso deteve os passos ao aproximar-se da mesa de trabalho: tivera a impressão de ouvir um ruído. Olhou para a lâmpada do teto, acionou duas ou três vezes o interruptor. Abaixou-se e examinou o vão sob a mesa, deu uma espiada no cesto de papéis. Estava mesmo ouvindo um zumbido.
Não havia de ser nada, só impressão. Mas... impressão é o que não podia ser! – refletiu Simão. Talvez o computador, a nova impressora... Ou um curto-circuito no ventilador? Ouvira certa vez a respeito de um desses aparelhos que, mesmo com o interruptor desligado, produzia estranho e misterioso ruído. Isto sem falar no grampeador do Menilla, que assustava o dono emitindo uma espécie de rosnado, segundo jurava seu ex-colega de banco.
Por via das dúvidas, Simão desconectou o ventilador da tomada, mas o ruído continuava lá. Percorreu a extensão da sala, na expectativa de que o zumbido ficasse distante dele. Tudo em vão. Pegou então o telefone:
- Dona Celeste, dê um pulinho aqui.
A secretária surgiu logo.
- A senhora ouve alguma coisa?
A mulher inclinou a cabeça para um lado e para o outro. Ergueu as sobrancelhas e revirou os olhos, numa careta bizarra.
- Estou ouvindo um ziiimmm...
- Um ziiimmm? Não é um zuuummm, não?
A secretária confirmou: era um ziiimmm. E o fez no exato instante em que o Borges irrompia sala adentro. Simão Roncoso se desculpou e pediu a ambos que o aguardassem enquanto ia ao toalete. Retornou minutos depois, desolado: o zumbido o acompanhara durante o trajeto que fizera pelo corredor.
Ainda se esforçava para disfarçar a apreensão, quando o Borges, inteirado pela secretária sobre o mistério, adiantou-se oferecendo ajuda: o ruído podia ser um caso raro de tentativa de comunicação extragaláctica.
- Seu Roncoso, o que é isso preso ao seu cinto? – interrompeu a secretária. – Não é essa coisa aí que tá fazendo barulho, não?
A coisa era um modelo primitivo de aparelho celular que o chefe levara para o escritório, na expectativa de encontrar ali um colecionador interessado. O modelo dispunha de um botão para ajuste do volume que, indevidamente acionado, tornava audível o ‘som do outro mundo’.
Antes de deixar a sala Borges resmungaria, entredentes, ter captado “uma espécie de som secundário e enigmático, perceptível apenas a ouvidos experientes”.
Pegou em seguida Dona Celeste pelo braço e, sem olhar para Simão Roncoso, saiu fechando a porta atrás de si.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Nada como se atualizar com a 'parafernália' tecnológica... Caso contrário seremos obsoletos sim! Enquanto lia pensava: - deve ser excesso de cera no ouvido... A idade acarreta isso também = sons do mar, sons de tambores, etc...
Abraço.