segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Botso

(Imagem: http://www.christopherbersbach.com/)




Pianista (apresentado ao piano pela mãe aos quatro anos de idade), maestro, professor, pintor e escultor. Um artista extraordinário, responsável pela formação de alguns dos mais respeitados profissionais da música erudita na atualidade.

Este é Wachtang 'Botso' Korisheli. Ou simplesmente Botso, personagem de documentário que a TV Escola levou ao ar dia desses.

Nascido em 1922 em Tbilisi, capital da Geórgia, então uma república da extinta União Soviética, Botso comeu o pão que o diabo amassou. Neto de um sacerdote ortodoxo viveu época de escuridão, quando templos religiosos eram desapropriados e transformados em estábulos.

A perseguição levaria Botso a ser batizado por um ator e ex-padre no palco do Teatro Nacional Rustaveli, atendendo ao desejo de sua mãe. O pai, Platon Korisheli, também ator, acabaria preso e executado por ordem de Stalin, para quem o Teatro deveria fazer apologia do partido e suas ideias, ao invés de ser visto como 'um espelho da sociedade'.

Quando Platon Korisheli foi preso, Botso tinha 14 anos. Ele e sua mãe foram ‘agraciados’ com o direito a estar com o prisioneiro por vinte minutos – tempo durante o qual, segundo Botso, "meu pai comprimiu tudo o que queria fazer por mim". E uma das coisas que ouviu dele foi o conselho, que passaria a observar por toda a vida, para que, antes de recolher-se ao final de cada dia, perguntasse a si mesmo se fizera o suficiente.

A morte do pai marcou profundamente o adolescente, que recebeu de seu carrancudo e reservado professor de Matemática, manifesta compaixão pelo momento por que passava o jovem. Ao fim de cinco minutos caminhando em silêncio a seu lado, o professor diria a Botso que ele era um herói.

Além da orfandade, a vida ainda reservaria a Botso enormes sofrimentos. Como o campo de concentração e o banimento de sua terra e de sua gente. Apesar disso, ele confessaria bem mais tarde que jamais conhecera um ser humano ruim, pois considerava que as pessoas eram levadas ao ódio pela dificuldade em se abrir com seus semelhantes. E que, tivesse se revoltado contra o sofrimento, não lhe teria sido possível viver tanto.

Botso morreu em 2015, aos 93 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. 

Em tempos de inédita devastação de valores – que passa inclusive pela ‘desfiguração’ das palavras – o heroísmo daquele georgiano, desconhecido por aqui, bem poderia ser referência para uma sociedade onde a palavra ‘herói’ costuma ser rebaixada a patamares inimagináveis.