quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Peregrino


(Imagem: Pinterest / homoviatorplenum)

Quando abriu os olhos, o dia também nascera. Aprendeu a dominar o escuro-claro, a driblar a insegurança do desconhecido, a encantar-se. Agarrou mãos, amou olhos, sorriu para sorrisos.

Chorou, brincou.

Iluminou caminhos, embora o azul da manhã também lhe revelasse sombras. Descobriu formas e tamanhos; cores, gente e rumos; cão, flores e dores. Houve risos, sonhos, diversão.

Amou.

No calor do meio-dia, entregou-se. Esfalfou-se. Mais gente e mais dores, menos risos e sorrisos. Soube da solidão, que enfrentou a dois, a quatro... Havia sonhos, projetos, futuro. Pediu fé.

Conduziu.

Em tarde morna, ocaso de sombras e de fina névoa. Os olhos varriam o claro-escuro, sorrindo silêncio de corações peregrinos e já distantes. Surpresas se revelaram em solidões e lágrimas.

Lembrou.

Procurou mãos no frio da noite. Recordou olhos, desejou sorrisos.

Cansado e só, adormeceu sorrindo.

(Repost - Editado)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Hibernando


(Imagem: Pinterest, do álbum de Gustavo Oliveira



Tocada pelo céu cinzento e pela chuva miúda e persistente que cai por lá onde ela mora, Mariana anuncia hibernação. Decisão sedutora, sobretudo quando parece predominar entre nós um certo desalento que, assim como a chuva que fustiga a poetisa, acinzenta horizontes.

As razões desse desalento podem brotar do noticiário que a cada dia retrata um cenário que evoca o mitológico Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma pedra de mármore até o cume de uma montanha. Por desígnio dos deuses, a pedra então rolava de volta ao ponto de partida, obrigando o personagem a recomeçar todo o trabalho.

Em tempos em que o absurdo vai adquirindo admirável naturalidade, segundo definição de conceituado comentarista político, refugiar-se no silêncio é consolador e reconfortante. Não o silêncio omissivo, mas o restaurador silêncio que nasce da exaustão e da sabedoria e que, em muitos casos, costuma ser mais eloquente que vários discursos.

Na Antiguidade o silêncio consagrou outro mito, o do filósofo Secundus, que resistiu até à ameaça de morte o pedido de Adriano para que falasse. Instado então pelo imperador a pronunciar-se por escrito, Secundus escreveu numa tabuinha que, apesar de ter o poder temporal de impor-lhe a morte, Adriano nada poderia contra sua voz e suas palavras.

O silêncio foi também a atitude de antigos Padres da Igreja nos primórdios do Cristianismo, quando certo peregrino se aconselhava com eles no deserto, para em seguida desprezar-lhes os ensinamentos e persistir numa vida de erros. Mas indo o reincidente ainda uma vez a eles, em busca de consolo e orientação, encontraria apenas o silêncio como resposta.

Há tempo de falar e tempo de calar, diz o Eclesiastes. O silêncio pode ter a face da cumplicidade ou da coragem, da dor ou da covardia.

Mas pode também ser assustador e tristemente profético.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O rabo da ratazana


(Imagem: Pinterest)

Fábulas. Há também a do gato e do rato velho.

Rodilardo, o gato, temido pela crueldade, passava fome diante da falta de caça. Aterrorizado, o povo rato mantinha-se nas tocas.

Mas o que tinha o gato de maldade, tinha também de esperteza. Pendurando-se cuidadosamente em uma trave de madeira, fingiu-se de morto. A notícia logo se espalhou, e dando-se conta da novidade, a rataria realizou festa espetacular. Cantavam, dançavam, riam, apostavam na causa da morte do bichano. Até que, lá pelas tantas, Rodilardo ‘ressuscitou’, trucidou uns tantos e ameaçou roer até os ossos dos fugitivos.

Não satisfeito pelos muitos ratos que lhe haviam escapado das garras, o gato cobriu-se de farinha e foi deitar-se junto à sacaria, enganando assim o restante do bando. Menos a uma ratazana velha e sem o rabo, perdido em outras armadilhas do passado.

A história vem a propósito da releitura de um artigo escrito há tempos pelo dramaturgo Mauro Rasi, falecido em 2003. Nele, Rasi ressalta a segurança de que precisamos para viver. Não apenas segurança, mas certezas. “É preciso distinguir com exatidão o amigo do inimigo, a sobrevivência depende desse discernimento”.

No artigo, intitulado O homem tornado doente (e ao qual creio já ter feito alguma referência aqui neste Pretextos-elr), o escritor aborda a cultura “tomada por homens cuja função é propagar falsas informações” – os supressivos, que vivem para gerar medo.

- Noventa por cento da ‘cultura’ que nos faz impotentes e infelizes, pacientes desse triste hospital que é a Terra – escreveu Rasi – vem de dados falsos, que se alastram.

Manipular pela aparência. Tornados integrantes da família do dono do castelo, os cavaleiros medievais tinham entre seus deveres, pelo alimento ou feudo que às vezes recebiam, manter o povoléu sob o jugo de giros regulares de intimidação – a que denominavam ‘cavalgadas’ – em torno do castelo. Era sua função mostrar a superioridade do homem a cavalo, tornado agente do poder de coerção.

Há estratégias, claro, para manter o público sob controle. O lingüista norte-americano Noam Chomsky relaciona uma dezena de procedimentos com essa finalidade. Distrair o povo, criar problemas para apresentar soluções, utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão e manter o público na ignorância e na mediocridade são rédeas eficazes.

Estratégias discursivas também surtem efeito. Médico e doutor em história da economia pela USP, Eduardo Bueno Fonseca Perillo assina, com a economista Maria Cristina Amorim, da PUC/SP, artigo que serve de exemplo. Publicado em junho de 2009 na revista Scientific American, nele os autores afirmam que “a repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade, e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico”.

A mídia, claro, tantas vezes se presta à manipulação. Li recentemente, ilustrando texto de Georges Bourdoukan, o que a título de anedota se conta com algumas variações conhecidas. A história faz referência a um cachorro que ataca uma menina no Central Park, em Nova Iorque. Enquanto curiosos, atemorizados, observam de longe o ataque, um homem se lança sobre o animal e, depois de muita luta, salva a criança.

Maravilhado, um policial se aproxima do herói, cumprimenta-o e prevê que a manchete dos jornais no dia seguinte anunciaria: ‘Um valente nova-iorquino salva a vida de uma menina’. O homem agradece e diz que não é de Nova Iorque.

- Bom – diz o policial. – Então a manchete será: ‘Um valente americano salva a vida de uma menina’.

Ao ser informado que o homem não era americano, mas palestino, o policial nada diz. No dia seguinte, os jornais publicariam a notícia, com a manchete: ‘Terrorista árabe massacra de maneira impiedosa um cachorro americano de raça, diante de uma menina de sete anos que chorava aterrorizada’.

O excesso de informação, já se disse, impede a reflexão. E como sem reflexão não pode haver discernimento, é fácil entender porque a canalhice da manipulação tem levado a sociedade tantas vezes a perder o rabo.

(Repost)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O grito pela esperança



Parece consensual a ideia de que vivemos tempos ameaçadores. Ouve-se por aí, entre meias-vozes e olhos arregalados, a rotina de previsões sobre dias (mais) difíceis, e até uma quinzena que se aproximaria escura como a noite. Noite que, para Santo Agostinho, é a mãe dos maus.

À medida que avançamos na informação, avançam sobre nós os temores. O futuro, não raro risonho e dócil às nossas esperanças no passado, hoje tem feições marcadas de apreensão e medo: o que é possível à maioria aguardar de um amanhã inevitavelmente atrelado a um hoje em que a vida é banal, o discurso enganador, a mesa rara, a saúde cara e o conhecimento inacessível?

A transformação de uma entressafra em longa estiagem de lideranças capazes de conduzir a sociedade a horizonte de realizações duradouras, respaldadas em valores universais, se, de um lado, faz sedutor e temerário o olhar para o passado, de outro emite alertas. Mais: exige mudanças muito além das que nos pedem apelos adocicados e oportunistas em favor de minorias. É o cidadão – homem, mulher, negro, índio, branco, estrangeiro, deficiente físico ou não, idoso ou jovem – que deve e exige o respeito do Estado e de seus governantes.

A devastação de valores morais e éticos é via larga para a violência, a insegurança e a má administração da coisa pública. Revigoradas pela impunidade e pela reverência que lhes fazem editorias ávidas de faturamento, tais mazelas não só ocupam mais espaço na mídia como atraem seguidores, encorajados pela capenguice da Justiça e pelos maus exemplos que as lideranças derramam com largueza sobre a sociedade.

É o ser humano que, em todas as direções, clama por justiça, atenção, oportunidades, acolhimento. Mas tantas vezes, na contramão dessa realidade que o nosso egoísmo falseia, somos levados a priorizar atenção aos animais, relegando nosso semelhante à própria sorte.

Os tempos não são ameaçadores. A ameaça está em nós mesmos, errantes peregrinos sem outra esperança que não a da súplica no livro de Ester, para que o Deus poderoso sobre todas as coisas nos ouça a voz.