domingo, 24 de abril de 2016

Desarmoniosa, farronqueira e engajada

(Pinterest, do álbum de Jaqueline Vitto Gomes)


O Brasil, onde riqueza e privilégios, conforto e oportunidades são indivisíveis, assiste ao esforço em favor da divisão que enfraquece. Na falta de argumentos válidos ao contraponto dos discursos, a ordem é desconstruir.

Tivesse a transmissão das sessões do Senado Federal e da Câmara dos Deputados a audiência das telenovelas, e certamente a opinião pública se beneficiaria na avaliação dos caminhos pelos quais trafega a política.

Desinformado, o eleitor é levado a erro também pela desconstrução travestida de memes nas redes sociais. É ali, graças à ingenuidade de boa parte dos internautas que alegremente compartilham muita bobagem, que essa gente é posta a trabalhar contra seus próprios interesses e convicções.

Aliás, o sociólogo e cientista político Leonidas Donskis definiu a linguagem encontrada na internet como “'sádica e canibalesca”, correndo solta “nas orgias verbais do ódio sem face, nas cloacas virtuais em que se defeca sobre os outros e nas demonstrações incomparáveis de insensibilidade humana, em especial nos comentários anônimos”.

Exemplos dessa sanha desconstrutivista são as reações à matéria que mídia de grande circulação publicou sobre a esposa do vice-presidente da República, Michel Temer, definindo-a como “bela, recatada e do lar”.

Sinônimo de resguardo, precaução, cautela, pudor, honestidade, pureza, modéstia e simplicidade, o recato, convenhamos, é ou deveria ser a preferência na formação do comportamento humano em geral, sobretudo o da mulher. Mais adequado o recato que a quixotada, a intriga, a inconveniência, a farronca ou o cacarejo.

Quanto a ser bela e do lar, é tão válido quanto ser feia e profissional ou politicamente engajada. O que não vale é, a despeito de um divisionismo de ocasião, tentar desconstruir valores e transformar em mais um tipo de preconceito o que vai fazendo do Brasil, na palavra de um escritor mineiro, “um país grande e bobo”.

São tantas as linhas que dividem os brasileiros em nós e eles, que não será exagero imaginar o dia em que os concursos de beleza serão considerados fonte de preconceito.

Haja!

domingo, 10 de abril de 2016

Em ebulição

(Imagem: Pinterest, do álbum de Petit Poá


O Brasil, que já foi um país de 'técnicos' de futebol, se transformou em celeiro de 'juristas'. Por aqui as esquinas, os bares, os lares e as piscinas se enchem de especialistas na Constituição – todos esgrimindo certezas sobre o que é ou não é crime.

Vivemos tempos em que indício de crime vira crime, e crime não passa de desinformação e incorreta interpretação do que diz a Lei. Há convicções de parte a parte, onde se digladia e não se poupam as cordas vocais para bradar o que um ex-presidente da República definiu certa vez como ‘um nhém-nhém-nhém’.

Soluções? Acenam-se algumas. Porém, a maliciosa e impatriótica divisão a que se procura levar a sociedade desorienta e confunde, surpreende, leva ao desalento e à indignação. Mas ela saberá optar, em meio à tamanha gritaria, pelo que diz a verdade não apenas na letra da Constituição, mas ainda pelo que a própria sociedade depura das amostras do que respinga fora desse caldeirão de dejetos.

A verdade, aliás, não costuma avermelhar rostos nem elevar punhos ameaçadores. Em realidades como a que vivemos, ela sussurra à razão com serenidade e equilíbrio, revelando a farsa e re-unindo o que, impiedosamente, se procura dividir.

É o que tanto se deseja a um País que tem pago altíssimo preço para avançar na realização do seu futuro.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Perigos da Noite


 
 
O aplicativo capta a transmissão, por emissora francesa, de um hino quaresmal do compositor inglês William Byrd intitulado Christe qui lux es et dies (Cristo, que és luz e dia): "Senhor todo Santo, nós oramos a vós / mantenha-nos esta noite livres do perigo...".
 
Em dado momento, o cântico se transforma em música de fundo para o discurso pronunciado ao vivo na Câmara dos Deputados. Melancolicamente devastador, o contraste revela o confronto entre a beleza da prece humilde e aflita e a falácia de uma bravata encenada aos berros e a punhos erguidos – tudo sugerindo arremate em ameaçado e inexistente pranto.

Atribui-se ao poeta, jornalista e escritor Cassiano Ricardo a afirmação de que no momento em que se nasce é que se começa a morrer. O percurso mais ou menos longo nesta centelha de vida na misteriosa noite do Tempo carrega em si não apenas dor e sofrimento mas, também e sobretudo, esperança. É nela, a esperança, que renascemos a cada dia.

Em tempos de prevalência do cinismo e da desfaçatez que corroem valores essenciais ao convívio em sociedade, é pelo fortalecimento da fé e no renascer da esperança que nos revigoramos para enfrentar a escuridão que o mundo dissemina. 

Livra-nos, Senhor, dos perigos desta Noite.