quarta-feira, 30 de março de 2016

Semelhança

(Imagem: Pinterest/Barbara Hudson)



Encontraram-se no balcão de uma cafeteria e trocaram cumprimentos sem excessos. O mais alto apontou com o queixo para o cidadão corpulento que atravessava a rua caminhando com dificuldade.

- Lá vai ele para a banca...

O outro assentiu com o olhar, sorveu dois goles de café e acrescentou que, naquela idade, tamanha disposição e persistência para o trabalho eram invejáveis.

- Sem dúvida! – rebateu o primeiro. – Não fosse aquele tombo de bicicleta...

O que puxara a conversa franziu as sobrancelhas, denotando estranheza. E quis saber mais:

- Tombo? Bicicleta?

- É... Não se lembra?

Ele não se lembrava. Sacudiu os ombros e perdeu-se com o olhar na agitação da rua. O primeiro continuou tentando encadear uma conversa qualquer:

- E o Xavier, hein?

- Que tem ele?

- Como que tem ele: soube não?

O do café voltou-se, e segurando a xícara vazia, insistiu na pergunta, desta vez com o olhar:

- Foi sepultado nesta manhã, acabo de voltar do cemitério.

O outro despertou como se levasse um choque:

- Você está me dizendo que o Xavier morreu? – e o homem arregalou um par de olhos congestionados de espanto e sonolência.

- Pois é...

- O Rosalindo Xavier? – insistiu o do café, ainda segurando no ar a xícara vazia. – Mas não era ele quem atravessava a rua mancando agora há pouco?

- Que Rosalindo? – exclamou o grandão. – Aquele era o Bastos Xavier, da banca de jornal.

O homem do cafezinho, agora de mãos vazias, suspirou constrangido e disse que pensava tratar-se de outro Xavier, que gerenciava uma banca de apostas do jogo do bicho. E arrematou:

- É que eles mancam parecido...

segunda-feira, 21 de março de 2016

Superlativos

(Imagem: Igor Morski, do álbum de Michela Pezzoli)


Não nos basta apenas ser mais velozes. Queremos cada vez mais tudo o que nos coloque ao menos um pouco acima em relação ao nosso vizinho. É urgência-urgentíssima ter, como condição indispensável para ser. Ainda que poucos consigam alcançar um nível de “perfeição” que, ilusoriamente, nos coloca frente a frente com a felicidade suprema, seguimos tentando atender aos apelos da máquina que promete nos fazer rápidos, maiores e melhores.
A placa do camelô que vende abacaxis informa que seu produto “é doce no superlativo absoluto sintético” (há quem assegure ter visto gente rodeando a carrocinha do homem, à procura do superlativo absoluto sintético dentro do qual estariam os abacaxis mais saborosos). Na vitrine da loja de eletroeletrônicos, a chamada é para a “hiper-extra-mega-big-grande-giga liquidação”.
Já não nos satisfazemos com pessoas normais, produtos e serviços de qualidade ou iniciativas humanamente compreensíveis. A vaga é para auxiliar administrativo da microempresa, mas a capacitação exigida é quase a de um executivo. Só a remuneração é vergonhosa, aviltante. Alguém dirá que são as regras do mercado, que o mundo é assim mesmo. Não, não é. Nós é que o fazemos assim.
O “excepcional”, o “fantástico” e o “extraordinário” são dispostos diante de nós o tempo todo. O modelo do carro novo é o melhor que há em desempenho, economia, conforto e beleza. O lançamento imobiliário é destaque por qualidades jamais oferecidas. O supermercado é hiper, o computador e o celular ficam ultrapassados antes que lhes dominemos todos os recursos da tecnologia. Estamos já cansados do equilíbrio e da mediania. Bom senso é termo que cheira a velharia, tem jeitão de passado.
Bem poderíamos repensar esse cacoete de grandeza que nos seduz, ao mesmo tempo em que dirige nossos passos à solidão monumental que nos espera, quer sejamos os bons, velozes e melhores ou não. De nada valerá tanto superlativo se a maioria mal sobrevive, encolhida e silenciosa diante de necessidades nunca atendidas.
Hiper, mega, extra, big, grande e giga deveria ser o esforço dos bons, velozes e melhores – sobretudo lideranças – para que uma incontável multidão levasse apenas uma vida normal.
(Repost - Editado)

quinta-feira, 10 de março de 2016

As lágrimas de Malvina


(Imagem: Pinterest/Lena Diniz)

A solidão de Malvina imitava-lhe as feições, a idade, os hábitos, e usava as mesmas roupas em todas as ocasiões e em todos os lugares onde a velha fosse. Só não havia acordo quanto aos sonhos: a mulher acalentava ainda o desejo secreto, incomunicável e reservadíssimo de casar-se. Trocar a companheira de sempre por um homem de carne e osso, capaz de estar ao seu lado. E que, se possível, lhe oferecesse flores.

Não vendo na vida cores além de sua feiura incomum e da rotina de faxineira, Malvina sentia desfalecer-lhe o sonho sempre que a solidão punha diante dela o espelho. Não haveria homem na face da Terra – um só – capaz de amar sua pobreza, sua feiura e sua rara vocação para servir? Verdade que ela não tinha mais nem lágrimas, nem ilusões. Perdera-se no tempo a última vez que caíra em pranto. Só a consciência de sua humildade comandava-lhe a vontade e as mãos, que se punham a serviço de quem necessitasse delas.

Encurvada e tímida, raramente a faxineira ousava erguer a cabeça para olhar alguém nos olhos. Sabia que o mundo lhe dispensava apenas tolerância, pela capacidade de limpar a sujeira dos outros. De resto, cabiam-lhe anonimato e indiferença. Menos por parte de Adolfo, o vendedor da lojinha do seu Guimarães. Em seus monólogos na madrugada, Malvina se esforçava por não crer que ele certa vez lhe dispensara atenção especial.

Dias antes a velha relacionara certo número de sonhos, cujo significado soubera por uma vizinha. Já sonhara com cachecol, caminhão na estrada e balas de canhão – sinais de novidades amorosas no horizonte. Lembrava-se, ainda, de um sonho com gaveta aberta – indício de bons ventos para uma paquera. É verdade que tivera sonhos também com escritor – sinal de embaraços financeiros – e com ervilhas, o que poderia significar complicações de menor importância. Mas...e o repetido sonho com um aspirador de pó novinho, prenunciando sucesso com o sexo oposto? Por isso a faxineira fora sondar o preço de um daqueles aparelhos, cuja posse julgava trazer resultado em dobro: auxiliaria no trabalho e teria mais efeito no caso das conquistas amorosas. Afinal, melhor ter um aspirador de pó do que ficar apenas sonhando com um.

Na loja, Malvina e o velho Adolfo se encontraram. Ele a tomara pelas mãos sob pretexto de ajudá-la a subir um degrauzinho – gesto que Malvina, em princípio, julgou desnecessário. Alto, magro, nariz imenso e óculos de lentes esverdeadas e grossas, o vendedor era fanho e deixava a impressão de estar sempre resfriado.

Apesar de terem logo concluído pela impossibilidade da compra do aspirador, isto não foi o bastante para convencer o também solitário Adolfo. A cada resultado negativo nas contas da cliente, ele inventava e aplicava fórmulas complicadíssimas, na tentativa de satisfazer a encantada Malvina. “Volte amanhã, dona Malvina, que eu vou conversar com seu Guimarães e ver o que a gente pode fazer” – despedia-se da faxineira.

Da loja, os encontros passaram a realizar-se na casa da improvável cliente, onde o vendedor se esforçava com orientações de como Malvina poderia controlar o orçamento. A falta de argumentos técnicos e financeiros de ambas as partes esgotou o fôlego da negociação, encerrada ao final de duas longas semanas. Mas um buquê de singelas flores do campo, enviado por Adolfo à faxineira, marcaria o início de outra conversa – esta, sim, coroada de pleno êxito.

Então Malvina, mais uma vez, chorou.

(Extraído de A Idade da Maçã)

sexta-feira, 4 de março de 2016

A arrogância dos cogumelos

(Imagem: Pinterest/DevianArt)


No supermercado, o homem com seus sessenta e poucos anos, envaidecido, contava a outro sobre o neto. ‘Ele tem cerca de quatro anos’, dizia. ‘O garoto é esperto, pega o tablet e pede para ver filme. Atende e fala direitinho ao celular... Quando que nessa idade a gente fazia isso?’

Não fazia. Não havia tablet, o aparelho de telefone era fixo, pesado e ficava fora do alcance das mãozinhas. Televisão era novidade cara e distante, e nem era fácil chegar perto e manusear os botões do rádio. Filme? Aos quatro anos de idade? Esqueça. Porém mais do que todas aquelas limitações, havia respeito – algo que tem encolhido como o permafrost do Ártico.

Pois crianças de quatro anos daquela época geraram e pariram, mas tentam conter, com valentia e possibilidades nada arrebatadoras, o que parece uma violenta maré de desvario que avança sobre netos de hoje.

Referi-me aqui certa vez à imagem cinematográfica de um velho que morre, esquecido e solitário, num quarto de hotel. Pode também ser numa calçada, sob uma ponte, num asilo ou num barracão restrito a raros metros quadrados. Para não reviver a visão usual e sofrida proporcionada por um hospital público ou uma clínica psiquiátrica.

A figura do velho, no entanto, é só um recurso que traduz a indiferença, para ficar no mínimo, que a sociedade dispensa a quem acumula idade e experiências e, além da própria, quase sempre ajuda a escrever outras histórias. Porque afinal – e como já se disse – não há solidão pequena.

Olhando um pouco para trás, veem-se vultos de adolescentes que encaravam com naturalidade e graça os benefícios da tecnologia em relação à realidade de seus antepassados. A Humanidade conquistara, aprendera. E isso era bom.

Mas a velocidade com que avançamos no tempo e fazemos História – sobretudo, a ‘qualidade’ desse avanço – mal nos permite rascunhar um passado que se acumula feito a nevasca do inverno novaiorquino. Netos de quatro anos nos fazem velhíssimos na meia idade. Corremos o risco de sermos condenados a pagar ainda mais impostos se alguma autoridade, como certo ministro japonês, nos considerar fonte inesgotável de despesas para o Estado. Corrupto pode, velho não.

Também já contei aqui o exemplo de uma famosa companhia petrolífera europeia, que recorreu em certa ocasião às cabeças brancas que haviam trabalhado na empresa, interrompendo-lhes o merecido descanso. E isto porque os jovens empregados tinham dúvidas sobre a química dos polímeros.

Conhecimento e conquistas prematuras, no vácuo de valores, costumam produzir figuras como a do personagem de Saint-Exupéry, que inchava-se de orgulho por considerar-se um homem sério e não fazer outra coisa senão somas. ‘Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém’. Mas o orgulhoso e sério mago das finanças não era um homem, mas um cogumelo.

A pressa para se destacar num mundo absurdamente competitivo tem produzido erros que uma considerável soma de experiências talvez não conseguisse sanar, a não ser pelo espaço de algumas gerações. E experiência é o que se deseja ter, própria e se possível bem antes da maturidade. Que, por seu lado, é metida goela abaixo da meninada, a título de autodefesa em um cenário que se faz mais hostil a cada dia. Não bastassem (maus) exemplos que proliferam feito tiririca no ambiente político em que vivemos. 
   
A experiência, como a vida, se esvai a seu tempo. Costuma deixar lembranças que igualmente se dissolvem, restando-lhes, em alguns casos, apenas um fóssil. Pode-se imaginar, no silêncio de um velho que morre, um doce e enigmático sorriso aos que ficam. Por que não lamentar que se considere ultrapassada e inútil, diante do volume de informações hoje disponíveis, a sabedoria com que se premiou uma vida de sofrimentos e sacrifícios pessoais?

Não há nostalgia, mas a suspeita de que educar para um futuro com liberdade é, de longe, o maior desafio da Humanidade. Educar resgatando valores devastados, como humildade, senso de justiça, respeito pelos iguais e pelo planeta. E fé. Disso certamente dependerá se e quanto ‘futuro’ poderemos ter como seres humanos.

Ou como cogumelos.

(Repost - Editado)