quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O pescador


(Imagem: BETLR)

A manhã de domingo estava perfeita. O pai relaxava do estresse na financeira lendo sobre automóveis, enquanto a mãe, aspirante a executiva de uma multinacional, fazia o mesmo tentando decifrar um velho caderno de receitas.

- Amor, o que é ovo póche?

- Ah, é uma beleza! Coincidência, pois estou lendo sobre ele agora. Se não custasse tão caro, a gente ia ter um.

- Do que é que você está falando? – estranhou a aprendiz de cozinha.

- Ué, do novo Porsche...

Tudo se esclareceu ao acertarem as dúvidas em torno do ovo pochê.

- Eu quero ir na casa da vovó...

A voz manhosa e fina vinha de um menino com cerca de quatro anos.

- Hoje não, outro dia a gente vai – respondeu o pai sem desviar os olhos da revista. Até que um dedinho indicador começou a passear sobre a página com a foto de um Lamborghini. Para chamar a atenção do pai, a pergunta veio logo:

- Que é isso?

- É um Lamborghini.

- Eu quero um.

O economista sorriu, aproximou a boca do ouvido da criança e disse-lhe num sussurro:

- Vai lá na cozinha e pede pra mamãe.

O garoto surpreendeu a mãe anotando os ingredientes de uma receita e disse que queria um 'bamboguini'. Sem desviar os olhos do caderno, como fizera o pai, a mulher respondeu que depois procuraria a receita.

- Eu quero ir na casa da vovó – o garoto insistiu.

Pedido desconsiderado, a mãe continuou a escrever e só deu uma pausa para sair em busca do celular, que tocava em algum canto da casa. Foi o suficiente para que, aproveitando a liberdade momentânea, a criança tomasse posse da caneta e do caderno de receitas.

Na volta da mulher à cozinha, a paz dominical sofreria ligeira turbulência diante de preciosas fórmulas culinárias fartamente rabiscadas. Com a cara mais feliz do mundo, o garotinho explicaria o 'desenho', feito para a mãe: era ele mesmo pescando no mar do capitão pirata.

Os adultos não entenderam nada, mas o domingo terminaria mesmo na casa da vovó.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Rebelião

(Imagem: Pinterest Paul Kuczynski)



Quanto vale uma informação?

Muito, se você souber o que fazer com ela. Pouco adianta insistir em informar e alertar o sujeito que não 'sente' o calor de proximidade do perigo na pele ou – pior – no próprio bolso.

A proverbial sabedoria (que a todo custo se procura liquidar) ensinava, em tom de trocadilho gracioso, que em alguns casos o que abunda, prejudica. No caso da dengue, zika, chikungunya e outras mazelas, o excesso de informação escoa pelo ralo sem acrescentar mais qualquer benefício. Exatamente porque é excesso. Cansou, já deu. Sobretudo porque começam a aparecer sinais que evidenciam miséria tão cruel quanto as consequências do vírus: o humano cacoete de tentar tirar proveito mercadológico e político de uma situação que comove e preocupa a sociedade.

Duas líderes comunitárias conversavam durante uma viagem de ônibus, queixando-se do esforço enorme para enfrentar a displicência da administração pública e o desinteresse da população pelo combate ao aedes egypt. Confessavam-se exaustas e desanimadas ao encontrarem inúmeros locais públicos com água parada, sujeira e lixo espalhado pela cidade. Situação semelhante à que mostrou o noticiário da tevê em Brasília, bem à volta da sede do poder.

Exemplos de seriedade e zelo na condução da coisa pública não é exatamente o que se tem experimentado no Brasil – pelo contrário: o que há é muito discurso, muito blá-blá-blá e muito estardalhaço midiático.

Na rua em que moro, por exemplo, existem pelo menos dois terrenos onde há anos se demoliram edificações, sendo um deles utilizado pelos frequentadores de barzinhos como estacionamento improvisado nos finais de semana. A área não é cercada, a terra a o mato avançam sobre o que restou de uma calçada, um pedaço de muro de contenção ameaça desabar há tempos (tendo, a poucos centímetros atrás dele, um poste de energia) e nada aconteceu ou acontece.

Excesso de informação, sem ação e bons exemplos, causa asco e alimenta a indiferença do cidadão. Mas pode também render bons frutos.

Como incentivar uma rebelião de indignados eleitores em favor da própria sociedade.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A vez do escracho

(Imagem: Pinterest/Sebastien Thibault)


A titular de uma secretaria da Prefeitura de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, publicou recentemente em rede social, segundo leio na imprensa, um texto onde recomenda que uma vítima da Síndrome de Guillain-Barré vá catar coquinho. A paciente mora na baixada fluminense e lá ficou internada por oito dias.

Não se trata de ato isolado, mas de tendência que se alastra e se generaliza – a do escracho, venha de onde vier. Querendo homenagear uma de suas apresentadoras do momento, a tevê mostrou dia desses um grupo de carnavalescos exibindo camiseta onde a 'homenageada' aparecia em gesto conhecido como 'dar uma banana'.

Com desenvoltura jamais vista, ergue-se o dedo médio em gesto fálico gratuitamente, por nada. Em passado não muito distante, a mídia publicou foto da Presidente da República durante a abertura da Copa do Mundo em 2014, onde Dilma Rousseff aparecia exibindo o dedo médio de ambas as mãos. O que sugeria uma reação às vaias do público seria atribuído mais tarde a uma montagem fotográfica.

Verdade ou não, o poder não está distante do gatilho que dispara escrachos para todo lado. Basta seguir os embates no Congresso, onde já se assistiu um membro do Senado xingar a mãe do Procurador Geral da República durante discurso proferido da tribuna daquela Casa.

E se ‘de cima’ o exemplo que vem é o mau, o da educação rasinha e rota, com mais razão a grosseria toma conta das ruas. Ali, movimentos sociais apelam para palavras de ordem com ofensas que, pulverizadas como a corrupção e a roubalheira, parecem não atingir o individualismo falsamente coberto por uma espécie de redoma invisível. Só parecem. Exemplos são implacáveis na determinação de se fazerem replicados, sobretudo pelos mais jovens.

Não se detenha nos numerosíssimos exemplos encontrados na internet, onde há muito o gesto adocicado de exibir um coraçãozinho com as mãos foi substituído por caretas, gestos (o do dedo médio é o preferido por homens e mulheres) e frases feitas contendo ofensas ao leitor seja ele quem for. Para se incluir na ‘tribo’ é preciso escrachar autoridades (culpadas ou não), atletas, figuras públicas e não-públicas.

Atirada ao porão das coisas inservíveis, a boa educação fica, assim, apenas na lembrança dos que são capazes de se indignar e se perguntar, secretamente, se ainda é possível esperar um futuro menos sombrio.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Burocracia




(Imagem: Pinterest / Jaelyn W)


Vário Moreira surpreendeu-se com o cano da arma batendo na janela do carro. Acabara de descalçar os sapatos, trocando-os pelas habituais sandálias de borracha que usava para dirigir. O ladrão, um jovem de cara risonha e cínica, assumiu o lugar do motorista, deixando o proprietário do veículo de pé, braços erguidos e fisionomia indescritível.

- Toma aí seu sapatinho, tio. Vira de costas até eu ir embora, senão leva chumbo... – o ladrão sentenciou e sumiu levando o carro.

Par de sapatos pendurado em dois dedos de uma das mãos e sem o celular, que ficara sobre o banco do carro, Vário entrou no primeiro boteco e ligou para a polícia. Esperou uma eternidade, mas a viatura que ficaram de mandar para o local não apareceu. Ligou então para a mulher que, depois de muita choradeira, pegou o outro carro da família e foi buscar o marido.

Seguiram ambos para a delegacia mais próxima, onde deram de cara com um cartaz informando que naquele final de semana (era fim de noite de um sábado), os queixosos deveriam dirigir-se a outra repartição, distante cerca de dois quilômetros. Lá, um policial apareceu com um retângulo de papel menor que a palma da mão e, “para adiantar o expediente”, segundo anunciou, foi anotando nele os dados que seriam transpostos mais tarde para o sistema: nome do proprietário, endereço, características do veículo roubado...

Na medida em que ocupava o espaço disponível para anotação, o bravo servidor público diminuía a letra, aproximava cada vez mais do rosto a palma da mão, fazia caretas que denotavam perseverança e fé na ocupação útil daquele papelzinho de nada.

- O endereço do cidadão é Rua Príncipe das Flores que número? – perguntou o policial.

- Mil duzentos e trinta – Vário respondeu.

O policial fez mais caretas e virou o papel no sentido anti-horário, espremendo ainda mais a anotação.

- Ô, diacho, o zero saiu na ponta do meu dedo... – lamentou.

Registrada finalmente a ocorrência, Vário Moreira e a mulher tomaram o rumo de casa, onde ela desabou na cama, mas ele não conseguiu pegar no sono. A todo instante vinha-lhe à mente a figura do ladrão, seu tom de deboche na voz... Quando finalmente começou a cochilar, foi despertado pelo telefone: era da delegacia, de onde uma voz avisava que o carro fora encontrado.

- De repente, seu Vário, o senhor pode vir até aqui e a gente dá um jeito de liberar logo o veículo...

Vário sacudiu a mulher:

- Acorda, Natália, que já encontraram o carro!

A mulher resmungou algo como “dá o carro de presente pro ladrão” e seguiu desacordada.

Já amanhecia quando Vário desembarcou do táxi em frente ao pátio de depósito da delegacia. Identificou-se com o porteiro dizendo que estava ali para resgatar o veículo.

- Garcia, ô Garcia! – o homem gritou para o colega, que surgiu do nada e se aproximou a passos rápidos.

Os dois confabularam a certa distância, de maneira a que Vário não ouvisse o que diziam. Em seguida, o tal Garcia pegou o telefone, fez com a mão uma concha junto ao bocal do aparelho, enquanto encurvava ligeiramente o tronco como se estivesse se protegendo de um ataque aéreo. Encerrada a ligação, sinalizou algo ao porteiro e desapareceu como surgira.

- Seu Vário, a gente está tendo a maior boa vontade com o senhor. Pra resolver logo o seu problema e o senhor não ficar sem o carro no fim de semana, né? Mas o cidadão vai ter que falar com o delegado, tô ligando pra ele aqui, ó... Alô, doutor Filgueiras? Aqui é o Mureta... não, o Mureta... É o Pavio, doutor Filgueiras... Então, o seu Vário, aquele do carrinho azul que a gente já achou, tá aqui e vai falar com o senhor que é pra ver se dá pra liberar logo o veículo...

Vário pegou o telefone, disse um respeitoso “alô doutor Filgueiras” e foi tudo. O delegado informou que liberar veículo resgatado das mãos de bandido, só durante o expediente, depois de preencher o formulário adequado e recolher as taxas.

- Só na segunda-feira, meu amigo – sentenciou o Filgueiras. – O senhor vai ter que se dirigir primeiro à delegacia de Justiciano, aqui do lado, que é o município em cuja jurisdição o seu carro foi encontrado. Lá, o senhor preenche o formulário, assina, recolhe a taxa e depois – aí sim, o senhor estará habilitado a retirar o veículo.

Vário agradeceu e passou o telefone ao Pavio, a quem perguntou se podia ao menos ver o carro – se tinham estragado alguma coisa, revirado o porta-luvas...

- Vai ser possível não, seu Vário. Infelizmente. Só mesmo na segunda – o porteiro foi dizendo com a pose de um disciplinado guarda imperial de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

A vítima do roubo agradeceu, deu meia volta, embarcou noutro táxi e voltou para casa.

Na segunda-feira, o expediente na delegacia mal começara e lá estavam Vário Moreira e a mulher, ele portando um envelope pardo com cópias de documentos exigidos para a liberação do veículo. Na sua vez de ser atendido, dispôs sobre o balcão toda a papelada.

- Certificado de propriedade do veículo? – quis saber o agente olhando por cima dos óculos.

- Tá aqui, ó... – exibiu Vário.

- Não é isso, mas aquela via com o recibo de venda...

- Precisa? – admirou-se a vítima do roubo.

- Precisa. Sem aquilo, nada feito.

Vário e a mulher percorreram de novo os 25 quilômetros até em casa, de onde voltaram depois à delegacia portando o documento. No guichê, o funcionário examinou o papel com ar entediado e pediu xerox.

- O cidadão sai por aquela porta, sobe uma rua de terra logo ali ao lado... É perto, uns 50 metros só. Lá em cima tem uma portinha pintada de azul. Ali eles fazem cópia xerox... – o homem explicou.

- Mais alguma coisa? – Vário indagou em tom de mal disfarçada impaciência.

O funcionário respondeu que era só retirar o veículo no depósito. E arrematou:
- O carro foi encontrado trancado e o ladrão levou as chaves. O cidadão tem aí consigo a chave reserva, né seu Vário?