quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Correspondência oficial



(Imagem: Pinterest/ffffound.com)
 
Recebo pelos correios um envelope com timbre da Assembleia Legislativa. Como não sou parlamentar e nenhuma relação pessoal ou profissional mantenho com o legislativo estadual, faço especulações se acaso não traria a carta, por exemplo, a comunicação de um voto de louvor, de aplausos ou até de um título com que, imerecidamente, eu tenha sido distinguido por aquela Casa de Leis.

Ansiedade e interrogações persistem até que, rasgando apressadamente a borda do envelope, retiro de dentro dele uma folha impressa e dobrada com a formalidade que a circunstância requer.

Logo abaixo do timbre oficial, vejo a numeração de uma circular com data de 21 de dezembro. ‘Cumprimentos pelo Natal e votos de paz e prosperidade no Ano Novo’ – tento adivinhar.  Afinal, eu fora lembrado por algum de nossos representantes ilustres. Sensibilizado sabe-se lá por que, Sua Excelência notara minha presença anônima e comum em meio à plebe eleitora. É bem verdade que a grafia do meu nome está errada, mas não há dúvida: o destinatário sou eu mesmo, confirmado pelo endereço corretíssimo.

A realidade, no entanto, começa a aparecer na forma impessoal com que sou tratado: a palavra prezado, seguida por vírgula. O parlamentar remetente saúda-me cordialmente e passa a relacionar verbas liberadas pelo governo do Estado, com "nosso esforço", e destinadas a escolas e a um hospital. 'É a boa notícia que tenho para o momento' – despede-se o político, com todo o apreço e sempre a meu dispor, segundo afirma.

Fecha a correspondência uma assinatura replicada em azul, seguindo-se o nome do parlamentar e a posição que ocupa na Mesa Diretora daquela Casa.

Confesso que senti enorme desalento, e antes de lançar a tal carta na cesta de papéis, pude ver que só para fazê-la alcançar este eleitor atento, a Assembleia Legislativa pagou, de porte postal, R$1,50.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Manchete

(Imagem: Pinterest)



Nenhum anunciante, colaborador – nada. A existência de O Periclitante estava nas mãos de seu único repórter, fotógrafo, editor e proprietário, M. Neves. Seria preciso trazer emoção e impacto às páginas. Era o que o genial Neves estava determinado a fazer naquela segunda-feira: voltaria das ruas com a notícia-verdade, a matéria-impacto. Não duvidassem dele.

Com sua velha câmera a tiracolo passou, como de hábito, pela fila do posto de saúde, onde a miséria implorava diariamente a migalha de um socorro-favor. Viu quando a mãe grávida pôs no chão a criança que tinha nos braços, atenta ao batidão de um funk. Cabeça metida dentro da bolsa, revirava seu conteúdo à procura do telefone celular.

O repórter viu a criança afastar-se da mãe, o fotógrafo botou-lhe a câmera nas mãos e o editor determinou que ele acompanhasse aquele menino de andar cambaleante como o de um bêbado. A mulher falava, sorria, gesticulava e fazia charme ao telefone, enquanto a criança seguia abrindo um claro na multidão na medida em que avançava.

Contorcendo-se no meio daquela gente, o jornalista procurava não perder a notícia de vista. Pisou o pé de uma velhota carregada de sacolas, deu uma cotovelada no carro do pipoqueiro, quase derrubou a banca de um camelô. Em volta, as pessoas viam correndo com certa desenvoltura pela calçada uma criança cuja mãe seguia tagarelando ao celular.

Braços estendidos, o garotinho parou junto ao segurança do carro-forte de uma transportadora de valores. O homem, por sua vez, tinha sua atenção voltada a dois sujeitos um pouco mais à frente: mão na coronha da arma, estava preparado para reagir a qualquer movimento suspeito.

Atraída pelo brilho do cano cromado, a criança tocou com os dedinhos a mão do segurança que, num salto espetacular, sacou a pistola do coldre e apontou-a na direção do que supunha ser a origem de um ataque. O clarão do flash de M. Neves registrou a cena que daria vida à primeira página da edição de O Periclitante no dia seguinte: de cara assustada, um segurança apontava a arma para uma criança que sorria.

Abaixo, a manchete: “Infância ameaçada!”

(Repost - Editado)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sonhos

(Imagem: Pinterest / So-chan)



Pesquisa realizada na Grã-Bretanha revela que os jovens se consideram mais solitários do que adultos com idade superior a 55 anos. Ainda não há razões claras para explicar esse resultado, mas segundo a Mental Health Foundation, entidade que encomendou o levantamento, o declínio na vida comunitária e o foco cada vez maior no trabalho possivelmente sejam causas do problema.
Outro levantamento – este, realizado em 1934 em Belo Horizonte envolvendo cerca de 1.400 crianças que cursavam o então 4º ano primário nos Grupos Escolares daquela capital (pesquisa, aliás, já comentada neste espaço) – ao invés de solidões, revelaria pais e professores como modelos para grande número dos pesquisados. Sobre sonhos de futuro, eles se tornariam realidade desde que o sonhador se transformasse em piloto, médico, engenheiro, padre ou em advogado. Embora livros ocupassem o primeiro lugar na preferência dos jovens na hora de ganhar um presente, somente dois estudantes alimentariam o sonho de se tornarem escritores. Dentre outros sonhadores, dois queriam ser jornalistas, um queria ser deputado, um queria ser ministro e um queria ser rei.
Do sonho simples de conhecer o mar, ao desejo humano e geral de ser feliz, todos temos à nossa frente sonhos que, ao lado da fé, nos põem a caminho. Em agosto de 1992, quando o Equador atravessava longo período de dificuldades políticas e econômicas, os muros da cidade de Quito amanheceram pichados com uma frase anônima: “A noite avança, mas os sonhos não”. Passados tantos anos, sua essência permanece atual para uma época em que pequenos-grandes sonhos se tornam diáfanos, tênues, desfazendo-se ao toque de uma realidade marcada por valores que lançam mão dos ideais da maioria, para a realização dos sonhos de poucos.
Há muito se sabe o que sonhos podem render, assim como onde podem levar quem os manipule com a destreza de um arrombador de fechaduras. Mais que ajudar a vender de tudo, sonhos são importantes para a conquista do poder. Convenientemente plantados, cevados e colhidos, a mesma sórdida crueldade que os induz, surrupia do sonhador as esperanças. E trata de realizar desejos de quem não reconhece nem dignidade, nem necessidades na pobreza dos que sonham um futuro honesto e simples.
A solidão – que para o romancista francês Henri de Régnier só é possível na juventude, época em que temos pela frente os sonhos – pode se tornar irremediavelmente amarga quando a capacidade de sonhar se esgota. A Arte não existiria se não fossem os sonhos – combustível também para as conquistas da Humanidade. E se ainda hoje insistimos em buscar explicações para o Universo, em explorar o Tempo e em conhecer os primeiros capítulos de nossa História, então é porque ainda mantemos viva a capacidade de sonhar.
Proust aconselha a que conheçamos bem nossos sonhos para que não soframos mais com eles. Por seu lado, é a partir de “vestígios de algum sonho dobrado em versos” que nossa escritora e blogueira Claude Bloc descreve o nascimento de um poema. Daí em diante, segundo ela, “o poema vai crescendo, rindo à toa, e o sonho afiado vai se perdendo nos descaminhos da imagem refletida na transparência dos sentimentos”.
Eis aí. Para o escritor Albert Béguin, é a solidão da poesia e do sonho que nos tira de nossa desoladora solidão. E se, no dizer de Bloc, os sonhos podem desaguar em poemas, bem orientados poderíamos – por que não? – voltar a tê-los como estímulo a um futuro melhor.

(Repost - Editado)