sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O rabo da ratazana


(Imagem: Pinterest)

Fábulas. Há também a do gato e do rato velho.

Rodilardo, o gato, temido pela crueldade, passava fome diante da falta de caça. Aterrorizado, o povo rato mantinha-se nas tocas.

Mas o que tinha o gato de maldade, tinha também de esperteza. Pendurando-se cuidadosamente em uma trave de madeira, fingiu-se de morto. A notícia logo se espalhou, e dando-se conta da novidade, a rataria realizou festa espetacular. Cantavam, dançavam, riam, apostavam na causa da morte do bichano. Até que, lá pelas tantas, Rodilardo ‘ressuscitou’, trucidou uns tantos e ameaçou roer até os ossos dos fugitivos.

Não satisfeito pelos muitos ratos que lhe haviam escapado das garras, o gato cobriu-se de farinha e foi deitar-se junto à sacaria, enganando assim o restante do bando. Menos a uma ratazana velha e sem o rabo, perdido em outras armadilhas do passado.

A história vem a propósito da releitura de um artigo escrito há tempos pelo dramaturgo Mauro Rasi, falecido em 2003. Nele, Rasi ressalta a segurança de que precisamos para viver. Não apenas segurança, mas certezas. “É preciso distinguir com exatidão o amigo do inimigo, a sobrevivência depende desse discernimento”.

No artigo, intitulado O homem tornado doente (e ao qual creio já ter feito alguma referência aqui neste Pretextos-elr), o escritor aborda a cultura “tomada por homens cuja função é propagar falsas informações” – os supressivos, que vivem para gerar medo.

- Noventa por cento da ‘cultura’ que nos faz impotentes e infelizes, pacientes desse triste hospital que é a Terra – escreveu Rasi – vem de dados falsos, que se alastram.

Manipular pela aparência. Tornados integrantes da família do dono do castelo, os cavaleiros medievais tinham entre seus deveres, pelo alimento ou feudo que às vezes recebiam, manter o povoléu sob o jugo de giros regulares de intimidação – a que denominavam ‘cavalgadas’ – em torno do castelo. Era sua função mostrar a superioridade do homem a cavalo, tornado agente do poder de coerção.

Há estratégias, claro, para manter o público sob controle. O lingüista norte-americano Noam Chomsky relaciona uma dezena de procedimentos com essa finalidade. Distrair o povo, criar problemas para apresentar soluções, utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão e manter o público na ignorância e na mediocridade são rédeas eficazes.

Estratégias discursivas também surtem efeito. Médico e doutor em história da economia pela USP, Eduardo Bueno Fonseca Perillo assina, com a economista Maria Cristina Amorim, da PUC/SP, artigo que serve de exemplo. Publicado em junho de 2009 na revista Scientific American, nele os autores afirmam que “a repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade, e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico”.

A mídia, claro, tantas vezes se presta à manipulação. Li recentemente, ilustrando texto de Georges Bourdoukan, o que a título de anedota se conta com algumas variações conhecidas. A história faz referência a um cachorro que ataca uma menina no Central Park, em Nova Iorque. Enquanto curiosos, atemorizados, observam de longe o ataque, um homem se lança sobre o animal e, depois de muita luta, salva a criança.

Maravilhado, um policial se aproxima do herói, cumprimenta-o e prevê que a manchete dos jornais no dia seguinte anunciaria: ‘Um valente nova-iorquino salva a vida de uma menina’. O homem agradece e diz que não é de Nova Iorque.

- Bom – diz o policial. – Então a manchete será: ‘Um valente americano salva a vida de uma menina’.

Ao ser informado que o homem não era americano, mas palestino, o policial nada diz. No dia seguinte, os jornais publicariam a notícia, com a manchete: ‘Terrorista árabe massacra de maneira impiedosa um cachorro americano de raça, diante de uma menina de sete anos que chorava aterrorizada’.

O excesso de informação, já se disse, impede a reflexão. E como sem reflexão não pode haver discernimento, é fácil entender porque a canalhice da manipulação tem levado a sociedade tantas vezes a perder o rabo.

(Repost)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Já dizia minha avó em sua doce filosofia de vida: - "o macaco senta sobre seu rabo e fala mal do rabo alheio"... E, assim, vamos nós bebendo certas manchetes, sem delimitarmos o contexto, pulverizando idiotices no mundo. E, olhe que há muitos "senhores poderosos", que usam desse artifício das máscaras físicas ou mentais, para ludibriar e manipular nossa inteligência.
Abraço.