sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O grito pela esperança



Parece consensual a ideia de que vivemos tempos ameaçadores. Ouve-se por aí, entre meias-vozes e olhos arregalados, a rotina de previsões sobre dias (mais) difíceis, e até uma quinzena que se aproximaria escura como a noite. Noite que, para Santo Agostinho, é a mãe dos maus.

À medida que avançamos na informação, avançam sobre nós os temores. O futuro, não raro risonho e dócil às nossas esperanças no passado, hoje tem feições marcadas de apreensão e medo: o que é possível à maioria aguardar de um amanhã inevitavelmente atrelado a um hoje em que a vida é banal, o discurso enganador, a mesa rara, a saúde cara e o conhecimento inacessível?

A transformação de uma entressafra em longa estiagem de lideranças capazes de conduzir a sociedade a horizonte de realizações duradouras, respaldadas em valores universais, se, de um lado, faz sedutor e temerário o olhar para o passado, de outro emite alertas. Mais: exige mudanças muito além das que nos pedem apelos adocicados e oportunistas em favor de minorias. É o cidadão – homem, mulher, negro, índio, branco, estrangeiro, deficiente físico ou não, idoso ou jovem – que deve e exige o respeito do Estado e de seus governantes.

A devastação de valores morais e éticos é via larga para a violência, a insegurança e a má administração da coisa pública. Revigoradas pela impunidade e pela reverência que lhes fazem editorias ávidas de faturamento, tais mazelas não só ocupam mais espaço na mídia como atraem seguidores, encorajados pela capenguice da Justiça e pelos maus exemplos que as lideranças derramam com largueza sobre a sociedade.

É o ser humano que, em todas as direções, clama por justiça, atenção, oportunidades, acolhimento. Mas tantas vezes, na contramão dessa realidade que o nosso egoísmo falseia, somos levados a priorizar atenção aos animais, relegando nosso semelhante à própria sorte.

Os tempos não são ameaçadores. A ameaça está em nós mesmos, errantes peregrinos sem outra esperança que não a da súplica no livro de Ester, para que o Deus poderoso sobre todas as coisas nos ouça a voz.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

"O ser humano é maior que seu pecado, o ser humano é maior do que seus erros, o ser humano, por mais culpado que seja, continua sendo ser humano"... (Cardeal Martini)
Temos que inferir nas atitudes solucionadoras das problemáticas que vivemos, assim penso...
Abraço.