segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Hibernando


(Imagem: Pinterest, do álbum de Gustavo Oliveira



Tocada pelo céu cinzento e pela chuva miúda e persistente que cai por lá onde ela mora, Mariana anuncia hibernação. Decisão sedutora, sobretudo quando parece predominar entre nós um certo desalento que, assim como a chuva que fustiga a poetisa, acinzenta horizontes.

As razões desse desalento podem brotar do noticiário que a cada dia retrata um cenário que evoca o mitológico Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma pedra de mármore até o cume de uma montanha. Por desígnio dos deuses, a pedra então rolava de volta ao ponto de partida, obrigando o personagem a recomeçar todo o trabalho.

Em tempos em que o absurdo vai adquirindo admirável naturalidade, segundo definição de conceituado comentarista político, refugiar-se no silêncio é consolador e reconfortante. Não o silêncio omissivo, mas o restaurador silêncio que nasce da exaustão e da sabedoria e que, em muitos casos, costuma ser mais eloquente que vários discursos.

Na Antiguidade o silêncio consagrou outro mito, o do filósofo Secundus, que resistiu até à ameaça de morte o pedido de Adriano para que falasse. Instado então pelo imperador a pronunciar-se por escrito, Secundus escreveu numa tabuinha que, apesar de ter o poder temporal de impor-lhe a morte, Adriano nada poderia contra sua voz e suas palavras.

O silêncio foi também a atitude de antigos Padres da Igreja nos primórdios do Cristianismo, quando certo peregrino se aconselhava com eles no deserto, para em seguida desprezar-lhes os ensinamentos e persistir numa vida de erros. Mas indo o reincidente ainda uma vez a eles, em busca de consolo e orientação, encontraria apenas o silêncio como resposta.

Há tempo de falar e tempo de calar, diz o Eclesiastes. O silêncio pode ter a face da cumplicidade ou da coragem, da dor ou da covardia.

Mas pode também ser assustador e tristemente profético.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Nota-se o povo estupefato pelos acontecimentos que, outrora, inconcebíveis, hoje até naturais! Já vive trancado nas grades, nas câmaras que fila tudo, e agora, também, cadeado no pensamento, pois, expor-se é macabramente aterrorizante! Engole-se. É indigesto tudo o que se vê e ouve. Então, hiberna-se...
Abraço.

Sunshine disse...

... A vida já está tão cheia de ruídos... Melhor calar.