terça-feira, 4 de outubro de 2016

Boa notícia

(Imagem: Pinterest / technoimage)

Não tem sido fácil oferecer ao leitor – este ser solidário e crítico – textos que o aliviem de temas preocupantes, ainda que por um quase nada de tempo. Ágil em abafar o murmúrio da canção que embala esperanças, desejos e alegrias, o cotidiano mostra-se quase sempre carregado de monstros bem nutridos e ruidosos.

Como escreveu mão anônima em muros da capital equatoriana certa ocasião, noite e sonhos avançam juntos. Talvez nos faltem fé e esperança que nos arrastem escuridão adentro, conduzindo-nos à saída do túnel. Quase epidêmica, a má notícia é, a um só tempo, ágil no despertar e entorpecer emoções. Toca mais do que a rara emoção que brota da conquista que liberta. Até porque esta, com traços de pieguice açucarada, virou estratégia de marketing.

É preciso conhecer a infelicidade alheia, bisbilhotar-lhe dores e angústias antes de experimentarmos a lembrança fugaz de que ainda podemos nos levantar a cada manhã, com saúde e planos de navegação para a vida. A quem tem teto, comida e saúde, boa notícia também é sonho. Sempre faltará algo, pois ambição sem limites é monstro insaciável, gêmeo de política tributária injusta.

Boa notícia, mesmo em grão, pode começar onde menos se espera. Até numa barata, cuja incompatibilidade com o chinelo é histórica. Foi esse inseto repugnante, por exemplo, que inspirou a ciência na realização do sonho de quem não tem mãos.

A estrutura das pernas da barata – em camadas superpostas e presas por uma espécie de mola – permite ao bicho adaptar-se a superfícies irregulares automaticamente, sem a intervenção do cérebro. E isso já levou cientistas a trabalharem desenhos de mão mecânica, em lugar de processos computacionais então considerados muito caros.

A notícia pode não ser tão importante para a maioria de nós, fechados quase sempre em nossas prioridades. Mas já revigorou esperanças.

Mesmo que tenha levado ou ainda leve o leitor a desferir numa barata uma chinelada reverente.

(Reeditado)

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Barata... eis a minha grande diferença! Indigesta tanto em Metamorfose, Franz Kafka, como em A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector... Não consegui ler... Total repugnância, ainda que sejam repletos de filosofia da vida!
Abraço.

Jussara Neves Rezende disse...

Alegra-me que a barata tenha servido para inspirar cientistas em projetos que melhorem a vida de seres humanos... Se dependesse de mim já estariam extintas há muito tempo, rs

Lau Milesi disse...

Ultimamente,o bichinho que assusta muito ao sexo feminino vem inspirando até belas crônicas como a sua,Eduardo. Genial!!
Um dia desses li que pesquisas mostram que baratas podem realizar decisões em grupo. Foram dadas três opções de esconderijos,num teste,para um grupo de 50 baratas.Os esconderijos foram escolhidos estrategicamente para que não abrigassem todas as baratas ao mesmo tempo.
E agora vem o mais interessante:elas se dividiram em grupos quase iguais,para ocupar dois esconderijos,deixando um vazio.
Será que faríamos o mesmo? :)
Um abraço.