quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Notícia de amor

(Imagem: Pinterest / Claude Monet)


A manhã azul e fria encheu-se do ruído habitual. A novidade era aquela inscrição no asfalto, pintada caprichosamente por mãos anônimas durante a madrugada: Laura, me perdoe. A súplica terminava em um coração bem desenhado, cujas linhas contornavam um buraco ainda pequeno, mas que a chuva e o trânsito se encarregariam de ampliar como a dor de uma paixão não correspondida.

Estrategicamente posicionada para ser vista do pequeno prédio de apartamentos bem em frente, a mensagem chamava a atenção de quem transitasse por ali, particularmente dos passageiros que aguardavam o ônibus na calçada do outro lado da rua. Quem seria Laura

- Falta de vergonha, sujar assim a rua... – reclamou a jovem abraçada a uma pasta recheada de papéis, apontando para a pichação enquanto buscava com o olhar o apoio da mulher que usava um chapeuzinho de flores.

- Gente que não tem o que fazer... – acrescentou o homem de guarda-chuva.

A mulher voltou-se para um e outro e argumentou: talvez aquilo fosse resultado de um arrependimento profundo, com o arrependido já tendo tentado todos os meios, sem sucesso, para alcançar o perdão da amada. E, à beira de um ato de desespero, tornara pública a sua dor, vendo naquela pichação sua última esperança.

- Coitado! Só quem já passou por uma situação dessas sabe avaliar bem o que representa tamanho sofrimento... – disse. E arrematou:

- Todo mundo fala nele, mas pouca gente conhece, de fato, o que é o desespero.

- Eu conheço e muito bem! – rebateu o homem do guarda-chuva. – Sabe lá o que é morar onde seu vizinho do prédio em frente tem um casal de poodles que passa o dia e parte da noite na varanda do apartamento, latindo sem parar?

- Isso é coisa de um tal Sedecias – atalhou uma voz cujo dono escutava a conversa do outro lado do poste. – O homem era apaixonado por essa Laura, até que ela terminou com ele pra ficar com um cara milionário. O Sedecias achava que a culpa era dele, e fez de tudo pra reconquistar a mulher. Até que passou por aqui ontem à noite, ligou pra ela, tocou o interfone e nada. Saiu e voltou de madrugada trazendo com ele pincel e tinta. Estava chorando quando pichou o asfalto. Foi embora em seguida, dizendo que encontraria paz nas linhas do trem.

- O senhor não fez nada para impedir? – indignou-se a jovem.

- Fazer o quê, dona? Eu não estava aqui, não. Quem me contou isso foi meu cunhado, e quem contou pra ele foi o porteiro da noite no prédio do lado.

- Tá certo, ele pichou a rua... – emendou a jovem. – Mas não precisava tomar atitude assim... tão definitiva!

A moça pegou o celular enquanto todos permaneciam em silêncio.

- Alô, Fonseca? Pauta aí matéria que envolve pichação, caso de amor e provável suicídio. Manda equipe aqui pra Rua Manoelito Mignon. Repórter e cinegrafista devem procurar uma tal Laura no número 235. Desesperado, o ex-namorado dela pichou um pedido de perdão no asfalto, mas a Laura trocou o cara pra ficar com um sujeito rico. Então o apaixonado disse que ia encontrar paz na ferrovia.

Sem jamais aparecer, dar uma declaração ou conceder uma entrevista, Laura não passaria de um vulto fugaz de chapeuzinho numa das janelas do edifício, registrado em imagem de baixa qualidade feita por celular anônimo.

Nos dias que se seguiram, correria a notícia de que a misteriosa personagem não apenas perdoara seu ex-amante, como estaria à sua procura.

Exceto um passageiro clandestino que, flagrado em vagão de carga de uma composição admitira ter embarcado ali como primeira etapa de uma volta ao mundo pegando carona, não se registraria qualquer anormalidade no tráfego de trens que atravessavam a cidade.

3 comentários:

Unknown disse...

Que delícia de história! *sorrindo cá comigo e meus botões....

Célia Rangel disse...

De trágica a "Notícia de amor" passou a ser cômica e bem oportunista... Favoreceu fofocas, trabalho aos catadores de notícias e levou-me a pensar que cada um faz seu julgamento de uma mesma situação. Depende da ótica! Não há como!
Abraço.

Sonia Lucia Vidal Inacio Inacio disse...

Li - reli - estou aqui uma vez mais na paz da noite, no silêncio envolvida e enamorada do namorado em questão.
Rasgou a alma, entregou-se ao chão declarando o amor, o seu amor.
Como sempre a humanidade sempre querendo ser bem informada e não sabe do quê, dá a notícia do pobre sofredor 'foi terminar sua dor na linha onde passam as locomotivas que levam para longe o vento surrado, os amores perdidos' e mais importante se ele não pegasse esta locomotiva e terminasse sob as rodas de ferro.
Parabéns Eduardo - estou aqui conversando com esta postagem singular.