quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As malas de Marina

(Imagem: Pinterest)


Há tempos dei com pequeno texto de Marina, jornalista de passagem meteórica com seu blog pela internet. Ele começava com a dúvida sobre se Lisboa dormia cedo demais, ou se era ela, Marina, quem estava sempre acordada.

Pois há textos que pegam a gente e não largam. E esse é um deles. Tratei de conservá-lo, e creio que registrei comentário à época. Se não o fiz deveria tê-lo feito, pois o texto merece.

A autora transpira dolorosa solidão em apenas uma dúzia de linhas. Da janela, Marina não mais reconhece o silêncio de ruas que já não lhe dizem nada. “O barulho dos raros carros em Arroios em nada diferem dos sons de ninar que agora passam num canal português”. Canção, aliás, que não chama e nem lhe tira o sono.

Uma semana havia se passado desde que Marina chegara à capital portuguesa, mas as malas continuavam “quase intactas no chão, prestes a serem levadas para o primeiro autocarro, comboio, avião... para um destino qualquer”. Destino que já fora Dublin, de onde, “apesar do nojento cheiro de cerveja e catchup das ruas”, brotava saudade naquela noite quente de Lisboa.

Sozinha pelas ruas, a autora confessava, melancolicamente, sentir um vazio e “um não sei bem o que é”. Quanto mais conhecia os cenários, Marina mais descobria sua paixão pelas pessoas. “Sozinha, tudo não passa de mera paisagem” – concluía.

Na ocasião em que o li, o texto me pareceu capaz de provocar a mesma dor com que alguém descrevia a própria solidão. E ainda hoje ele é forte, desenhando uma espécie de saudade das gentes, de uma humanidade que, imaginada solidária na singular e comum aventura, apenas na catástrofe consegue por vezes recorrer a um tênue e invisível laço fraterno.

Não soube mais de Marina, nem de suas malas quase intactas em Lisboa. Muito menos da solidão que, em poucas linhas, deixou escapar num fragmento de dor tão vivo e tão verdadeiramente humano.

Tomara fosse ele contagiante, espalhando-se por aí, pelas noites quentes, desmanchando malas sempre prontas a partir para o imenso vazio de um individualismo absurdo e suicida.

(Repost)

3 comentários:

Unknown disse...

É tão forte a sensação de estarmos acompanhados nessa solidão profunda, desejada e vivida espontaneamente. Você sabe dela. Eu também.

Célia Rangel disse...

Muitas vezes, sequer precisamos de malas para sacramentarmos nossa solidão. De partida, à noite, madrugada ou, com o sol despontando, maquiamo-nos, talvez como Marina, para suportarmos a indiferença, a frieza e a crueldade humana.
Abraço.

Artes e escritas disse...

Eu sou cristã, isso muda tudo. Ou, seja, pelos meus hábitos é muito difícil entender essa perspectiva contrária ao que Deus quer para o ser humano, que o siga. Se Marina estivesse seguindo a Deus, ela não estaria sozinha e teria um objetivo, a missão de todo cristão é vivificar a verdade divina para todo o mundo. Marina se ocuparia tanto nessa atividade que nem sentiria vazio algum e muito menos tristeza, pois faria o que pudesse para incentivar os outros a seguirem junto com ela. Um abraço, Yayá.