quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A tosse da vaca


(Imagem: Pinterest, do álbum de FelipeArte)

Sem ter como segurar a língua nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Quê que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo decidiu ser mais direto:
- É... Esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente!
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear com dissimulado interesse um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos em seu interlocutor, que de novo se desculpou.
- O senhor releve a minha insistência, mas judiar é palavra que remete a “judeu”. Não é a melhor maneira de se expressar. Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento que prevenisse possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo.
Dito isto, voltou a folhear a revista.
(Repost - Editado)

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Depois de tanto uso e desuso das palavras... só mesmo a "vaca tossindo" e "a galinha criando dentes"... Lema atual dos nossos políticos!
Abraço.

Almir Albuquerque disse...

Não me admira que o tal Jesualdo estivesse surpreso com a reprimenda do desconhecido. Afinal, o preconceito está tão enraizado no nosso vocabulário, que parece uma coisa natural.

Antes se passava despercebido, mas hoje cada vez mais pessoas não aceitam mais comentários jocosos, piadas, comparações ou analogias que remetam às características negativas de uma raça, um grupo ou um gênero específico.

No mínimo dos mínimos, porque é deselegante, é feio, e faz parte de um senso-comum que as pessoas mais instruídas devem superar.

Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

Clotilde ♥ Fascioni disse...

Realmente esse "politicamente correto" já tirou em muito o bom humor do povo. Penso que é a forma de falar diretamente, a entonação e não as palavras que ofendem.
Muito bom seu post, andei afastada, mas voltei.
Abraços meu amigo.☼