sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Vigia - 11


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Peguei meu rádio, algumas peças de roupa e o que sobrou do mapa, e meti tudo numa sacola. Tive o cuidado de não esquecer a cópia amarelada de “O Vigia”, que tão ternas recordações me traz de sua autora. Tudo pronto, fui a mais uma noite de vigília.
Bebel não apareceu. Estive apenas com Priscila, a quem entreguei um envelope lacrado recomendando-lhe que o fizesse chegar às mãos da minha amiga. Em telegráfico bilhete, eu falava sobre uma “breve temporada de férias”, cujo retorno à pilha de tijolos só eu sabia que não aconteceria mais: logo cedo eu passaria no escritório do patrão, onde alegaria uma emergência qualquer – algo inadiável, definitivo e grave o suficiente para que pedisse demissão.
À curiosa Priscila eu disse, sério, que o envelope continha passagens aéreas que nos permitiriam, Bebel e eu, passar tórridos dias de lazer em Burkina Fasso.  A loura arregalou os olhos, deu um gritinho e disse que tomaria satisfações com a traidora companheira, que nada havia comentado com ela sobre a viagem.
Pouco antes das três horas peguei minha sacola, saí e tranquei o cadeado do portão. Antes, tive o cuidado de deixar acesa a lâmpada da entrada.
Nessa hora ouvi o primeiro apito do trem.

FIM

2 comentários:

Elyane Lacerdda disse...

Bom texto,amigo escritor!
Bom fds
http://www.elianedelacerda.com

Célia Rangel disse...

Ainda que na fantasia, no imaginário, você permite que cada leitor escreva o seu final. Há um poético de paixão, de entrega e de libertação! Paixão que se tornou hábito na presença da Bebel. Entrega de seus desejos lacrados em um envelope. E, libertação ao chavear o cadeado, sem perspectiva de reabri-lo.
E, no trem segue nova esperança...
Abraço.