domingo, 17 de julho de 2016

O Vigia - 10


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Passaram-se vários dias desde que andei relembrando o poema de Kaliandra que, por uma dessas coincidências bastante comuns, deu notícias. E o fez pelo Carlão (que andou por aqui) para dizer que está indo para Sidney, Austrália. Vai de mudança, marido a tiracolo e bagagem de mão. Chegando lá, começará vida nova que, torcemos todos os que ficamos fiéis à boa cerveja do Guto, possa continuar repleta de sorrisos, jovial e sonhadora.
Tão logo soube da novidade, tratei de localizar a Austrália no meu mapa. Eu o havia colocado sob uma latinha de tinta, que usei para pintar no tapume uma advertência contra as pichações. Puxei-o com um arranco, a lata virou e derramou sobre o papel um pouco de tinta vermelha. Para minha surpresa o borrão ficou exatamente sobre a Austrália, tendo coberto também Papua Nova Guiné, Indonésia e aquele sem-fim de ilhazinhas que existem ao redor. Uma lágrima vermelha alcançou as Ilhas Christmas.
Incrédulo, eu ainda olhava o estrago quando um pensamento me assaltou: e se tudo fosse uma advertência, um aviso? Tinta vermelha, cor de sangue, sobre o mapa da Austrália, destino da poetisa... E para chegar a Sidney, Kaliandra certamente tomaria um avião.
Peguei imediatamente um pedaço de estopa embebida em solvente e esfreguei-a sobre a mancha, que se espalhou e rasgou o papel. “Adeus mapa, adeus roteiros, adeus Kaliandra!”, desabafei em alta voz.
- Quer dizer então que tenho rival, é? Quem é essa tal pra quem Você está dando adeus, hein?
A pergunta vinha da janelinha do portão e que eu deixara aberta. Emoldurada por uma geringonça de madeira imunda e respingada de tudo, vi, sorridente, a cara da Bebel.
- É um poema... a Kaliandra... nada não!
A prostituta resignou-se a não saber. Falou que poemas são perigosos, podem por em risco os corações. Da parte dela jamais fizera algum, mas já os recebera. Olhou depois para o meu mapa sujo de tinta e perguntou de onde vinha aquele “sangue”, se eu acaso havia tentado o suicídio cortando os pulsos.
- Vale a pena matar-se por mulher não... – aconselhou.  E séria:
- Aliás, só vale se for por mim.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Essa Bebel é divina em sua filosofia pura de quem vive "a dita vida fácil"... Sabe que, muitas vezes, a ignorância é um presente divino? Deixa mais leve o fardo do dia a dia! Bebel faz e acontece, sem se preocupar com o 'devir'. Creio que a seu modo, é feliz!
O caminho literário desse "O Vigia" está a cada capítulo aguçando desfechos...
Abraço.