sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Carta


(Imagem: Pinterest, do álbum de Helton Bastos)

Querida Danielle:
Vovô escreve para você porque sua mãe me disse da sua dificuldade em cumprir essa tarefa da escola. Assim, envio-lhe esta carta, que você responde, copia tudo no seu caderno de casa e leva para a professora. Aí você me conta que sua cartinha para o vovô foi a que tirou a melhor nota, combinado?
Vovó Esperança e eu estamos bem, mas com muitas saudades de vocês. Qualquer dia a gente aparece aí na capital.
E você? Estudando bastante? Como estão seus pais?
Enquanto escrevo, o vizinho aqui em frente ouve essas músicas de hoje – o tal de funk. Você gosta disso, Danielle? Pois vovô agora se delicia com a terceira de Brahms...
Espero que você tenha desistido de fazer a tal tatuagem de dragão. Você é ainda muito nova, e seus pais estão certos em não deixar que você faça isto agora.
Estude bastante. Vovô já está ansioso para receber sua cartinha.
Um beijo para você.
Ass.: Vovô Felício e vovó Esperança.
PS – Peça à sua mãe notícias da Juju e me escreva sobre ela na sua resposta.
Vô:
Legal receber sua carta. É a primeira que eu recebo na vida.
Não sei se vou tirar notão. Não gosto de escrever cartas, eu nunca escrevi uma. Prefiro e-mail e face. Você tem face, vô? Se tiver, me adiciona lá. Já estou com 825 amigos.
Não curto muito o funk, não. Gosto mesmo é da dupla Zé Ronaldo e Apolinário. Curto eles cantando “Errei a mira”.
Não sei o que você quis dizer com “a terceira de Brahms”.
Não desisti da tatoo. Dragão é legal e eu ainda vou ter um nas costas, bem grandão.
A Juju morreu atropelada na segunda-feira. Foi a maior confusão aqui na rua.
Bjs.     
Dani
Danielle querida:
Demorei um pouco para responder sua cartinha (sua mãe me falou que sua nota foi boa e que ela teve que corrigir uns errinhos antes de enviá-la a mim).
Como você já deve saber, vovô não andou bem. Ficamos, vovó e eu, muito abalados com a notícia que você deu sobre a Juju.
Querida, a Juju a que eu me referia era a minha única prima ainda viva, a Júlia, e que também mora aí na capital. A Juju que morreu atropelada, segundo sua mãe, foi uma tal dona Judite, vizinha de vocês...
Na minha idade, Danielle, tenho só dois amigos verdadeiros e que, certamente, já me valeram e ainda valem pelos mais de 800 que você diz que tem no face (é uma rede social, né?). Tenho isso não, Dani. Vovô e vovó nem precisam disso para continuar a ser felizes.
Beijo para você, outro para seus pais.
Vovô Felício.
PS – Brahms era um compositor de música erudita. A “terceira” é uma das sinfonias que ele compôs.

(Repost - Editado)

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Momento poético esse de trocar cartas com familiares... Mas, ultrapassado com Face, Instagram, WhatsApp e demais redes sociais...
Amedronta-me esses novos meios de ler e escrever! Uma carta? Tinha todo um ritual. Lembro-me da minha professora exigindo parágrafo, localização e data, tratamento pronominal... e por ai vai...
Hoje? Internetês. Abrevia-se tudo. Novos códigos. Neles sou analfabeta! Aliás, usam muito mais da imagem que da palavra! Possivelmente, essa nova geração nos vê como "humanossauro"!
Abraço.

Rita Lavoyer disse...

Nossa, eu tenho um aqui que não desistiu do dragão , disse que vai fazer e vai.
Ele não tem avô para lhe mandar uma carta.

Lau Milesi disse...

Sensacional,Eduardo!!
Em um mundo tão conectado à internet,movido pela troca de Messenger,Snapchat,WhatsApp etc...receber uma cartinha é inacreditável mesmo.
Vou te contar um segredo:rs semanalmente envio cartões, não cartinhas,para os meus netinhos que estão longe.
Muito interessante o vovô falando sobre o número de amigos que tem.Há um músico/compositor,que não é o Brahms,:)é o
Projota,um rapper,que compôs uma letra assim:
"Colegas?Eu tenho 20.Amigos?Eu tenho 6.
Que eu veja sempre?4
Que eu posso contar? Só 3.

Um abraço,Eduardo.Muito bom te ler.:)