quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Vigia - 7


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)

Bebel está impossível. Ela e Priscila – a louraça que, descobri depois, é um travesti. Qualquer coisa é motivo para que ambas lembrem o caso do acidente com o patrão.  Sempre me refiro ao fato como uma coincidência, mas Bebel jura que tem poderes extrasensoriais. “Adivinho as coisas”, ela anuncia. Às vezes peço-lhe que adivinhe o que estou pensando, mas ela diz que precisa parar um pouco de falar besteira.
Tenho refletido bastante sobre mudar. Mudar de vida, de cidade, de rotina. Vejo o meu velho mapa-múndi e, confesso aqui, chego a me imaginar construindo um barco capaz de navegar em alto mar. Sei que no meu caso isto é impossível: nada entendo de barcos, não tenho recursos, não sei navegar. Mal dou conta de fazê-lo por esta vida atribulada e difícil, repleta de surpresas, a maior parte delas desagradáveis. O que constato sempre – e cada vez com mais clareza – é a nossa extrema condição de miséria. Não falo da miséria decorrente da pobreza material, mas da nossa condição humana. Tirando alguma cordialidade e trato social, prevalece em nós o que nos flagela: o egoísmo, a soberba, a avareza. A crueldade. Negamos tudo isto, mas somos empurrados a cada dia em direção a hábitos sem os quais talvez não soubéssemos sobreviver.
Olho o meu mapa e penso que o homem tem o mar, mas uma significativa parcela da Humanidade sequer esteve algum dia em uma praia. Há uma imensidão de terra espalhada pelo mundo, e no entanto a maior parte dos homens não é dono de sequer um pedacinho. Eu por exemplo jamais vi o mar e nada tenho, a não ser eu mesmo e essa voz misteriosa que dialoga comigo, uma espécie de outro eu que trago dentro de mim.
Apesar de tudo, sinto às vezes uma certa compaixão por nós, os seres humanos. Suponho-me derradeiro sobrevivente da raça, última testemunha da nossa história. Li certa ocasião as conclusões de um cientista, para quem o último homem fechará os olhos no ano 2400, extremamente rico e em meio ao tédio, 100 bilhões de nascimentos depois que o primeiro bebê humano contemplou o teto de sua caverna.
Reflito sobre essa possibilidade e vivo uma solidão tremenda, uma dor profunda pelo desaparecimento de um planeta azul e efervescente de vida, barulhento e fantástico, violento e misterioso, nossa casa e nossa nave. Uma vez eu disse ao Palavrinha que a Terra é azul porque todo mundo usa jeans. Ainda que fosse verdade, em nada diminuiria a extraordinária beleza da aventura humana, cuja trajetória certamente estará registrada no livro de Deus.
Vi dia desses em um jornal que o Brasil é comparável a países mais pobres por causa das desigualdades sociais. À noite, tentei trocar umas idéias com a Bebel a respeito, mas ela nem prestou atenção. Disse que isso não é problema dela, e que “existe presidente e políticos pra essas coisas, pra cuidar da gente. E não pra ficar roubando, fazendo safadeza com o nosso dinheiro”.
 - O governo só sabe cobrar imposto. Cambada de gente desqualificada, é o que eles são! – a Bebel desabafou.
Mas os governos são os homens, que sendo bons... – pensei. Mas não é o nosso caso. O que prevalece é não ser bom e chegar ao poder. É a exigência, a condição. Juízo e misericórdia costumam levar-nos em direção oposta a Brasília. Fica para algum predestinado a missão de nos acordar a todos, fazendo-nos botar o xis no lugar certo, quando for o caso.
- Deixe de ficar com minhoca na cabeça – a Bebel me advertiu. – Trate de fazer o seu serviço. Vigia é pra vigiar.
 Virou as costas e saiu rebolando. Dois passos à frente, voltou-se, irônica:
- E olha que estão roubando tijolo aí...
Fiz-lhe um gesto obsceno e recebi outro como resposta.
Peguei de novo o meu mapa e uma pergunta me veio à mente: que papel estaria reservado a mim no mundo – eu, um vigia de tijolos?

(Repost - Editado)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Não é só "o vigia de tijolos" que se questiona sobre sua "utilidade" no mundo! Vivemos um tempo em que ser honesto é supérfluo, descartável, obsoleto. As trapaças proliferam-se. No meu mapa mundi vejo vários "brasis": o que trabalha escravocratamente por mísero salário, o que usufrui nababescamente, e o que pateticamente se submete... Desfaçatez, cinismo e hipocrisia imperam... Certos estão Bebel e o Vigia em seus gestos obscenos... Catarse plena!
Abraço.

Elyane Lacerdda disse...

Amigo,
passando pra conhecer seu cantinho...
muito bom, gostei do texto!
Bjos
http://www.elianedelacerda.com