sábado, 18 de junho de 2016

O Vigia - 5



(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)

Chegou o inverno meteorológico, pois o que decorre da progressiva indiferença humana continua rigorosíssimo, as pessoas cada vez mais voltadas para si mesmas. Dia desses o Palavrinha aprontou falatório no Bar do Guto sobre nosso crescente individualismo. Todos aplaudimos, delirante e etilicamente. “Somos uns egoístas”, ele começou. A deixa foi um derradeiro pedaço de chouriço, surrupiado pelo Flamínio da porção que nos fora ofertada pelo dono da casa. Abraçado ao orador, o ladrão de chouriço balbuciava palavras ébrias de apoio à denúncia. Quanto a mim, puxava os aplausos com incomum desenvoltura que a mim mesmo surpreendia.
- O Presidente da República é um egoísta, os políticos são todos uns canalhas, o prefeito é um safado...
- Muito bem, apoiado! – resmungava o Flamínio prestes a desabar sobre a primeira mesa, o braço envolvendo o pescoço do Palavrinha como se quisesse aplicar-lhe uma gravata.
- Só índio não é egoísta – continuou o orador. – Índio e o Guto aqui, que deu pra gente essa porção de chouriço, mas de que o egoísta do Flamínio cometeu a canalhice de levar o último pedaço.
Flamínio gritava “apoiado”, mas pedia a palavra para se defender daquela “acusação torpe”. Emitia arrotos estrondosos e agarrava-se mais e mais ao orador para não cair. Acusador a acusado amparavam-se, até que alguém teve o bom senso de pedir a saideira. Reagindo à ameaça de dispersão da confraria, o Palavrinha então mergulhou de cabeça na defesa de sua teoria. Segundo ele, índio não é egoísta como o resto da Humanidade por causa de seu estado de miséria extrema. Além disso, vive na selva e não conhece dinheiro, nem automóvel.
- Eu tô falando é de índio-índio, não é desses que aparecem no Congresso em Brasília, não...
A discussão foi ao Alto Xingu, abordou os fatores da hereditariedade, passou pela influência dos portugueses com a descoberta do Brasil, resvalou pelos ensinamentos da Bíblia e foi parar em Adão e Eva. “O egoísmo começou no Paraíso”, sentenciou o Palavrinha com ares de absoluta falta de autoridade.
- Menos a serpente! - gritou o Flamínio. – Se a serpente fosse egoísta não teria dado a maçã pra Eva...
Discutíamos acaloradamente, as palavras saindo trôpegas e cheirando a pinga, conhaque e cerveja. Pela calçada em frente ao bar, as pessoas iam passando apressadas, sérias, alheias à denúncia grave feita pelo Palavrinha e assumida por todos nós. Bêbados e felizes, éramos invisíveis aos transeuntes. Naquele momento, compartilhávamos a opinião de que toda a humanidade chafurdava na imundície do egoísmo, exceto Guto e os índios. O ladrão de chouriço, o orador e eu tínhamos o mérito de reconhecer publicamente nossa fraqueza. Embalados por monumental pileque, encarávamos aquela porção gratuita de chouriço como um gesto de extraordinário desprendimento. Em comum com a raça humana tínhamos, além do egoísmo, também o fato de sentirmos frio.
Quando peguei serviço algumas horas mais tarde, mal conseguia manter as mãos fora dos bolsos do casaco para segurar o mapa aberto.

Um comentário:

Sonia Inacio disse...

Eduardo - por vezes a sobriedade não nos proporciona a verdade na ponta da língua.
Beber a se embriagar e tropegos contar e formar histórias é um direito só dos homens - se a mulher fizer o mesmo vai ser violentada em seus valores.
Quanto ao vigia - acredito que o drink vai esquentar o fisico e a alma para tirar a noite em vigília , longe dos padrões de vigilantes anonimos.