sábado, 11 de junho de 2016

O Vigia - 4


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)

Sonhei com um velho editor de jornais, meu amigo em tempos de escola. Tomamos rumos diferentes na vida e nunca mais nos vimos. Soube-o depois metido com uma profissão que sinceramente admiro. Gostaria de ter sido um jornalista, fazer reportagens sobre as pessoas e seus artifícios para sobreviverem num mundo como o de hoje – como o de sempre. Falar de idas e vindas, da constante inquietação humana numa espécie de busca ao que uns chamam Deus, outros a verdade, outros ainda a riqueza.  Nomes diferentes que damos à felicidade.
Pois o meu ex-amigo apareceu-me em sonho vespertino, sorridente a amável. Encontrávamos em um posto de abastecimento de combustíveis ou algo assim à beira de uma estrada – eu, desempregado e querendo ser jornalista. O todo-poderoso ouvia-me afável, enquanto eu me derramava em expectativa, suplicando-lhe uma chance. Até que, sem perder um mínimo traço do sorriso que trazia no rosto, interrompeu-me para perguntar se eu poderia emprestar-lhe algum dinheiro. Acordei quando pensava em como atendê-lo em sua aflição. Curiosamente foi com esse amigo que dividi, algumas vezes, meu lanche nos tempos de escola.
O sonho me levou ao delírio de acalentar a ideia de procurá-lo para pedir uma oportunidade. Quem sabe poderia ser uma chance para auxiliar na revisão de textos? Sei que domino razoavelmente a escrita, e isto graças ao rigor de minha mãe para que eu lesse muito e escrevesse corretamente. Atendido em meu pedido, eu ajudaria o leitor a trafegar por estrada menos acidentada de erros. Mesmo não considerando a profissão de todo má, a de revisor certamente seria uma conquista e tanto.
Em caso de negativa, dispunha-me a aceitar até função intermediária, burocrática. E se nada disso desse resultado, abriria o coração confessando ao meu amigo que o destino terminara por fazer-me vigilante de tijolos e afins. Quem sabe não estaria ali, diante dele, um bom vigia noturno para o prédio do jornal?
Ensaiei algumas entradas. Com gestos largos e bem estudados, eu lhe perguntaria se ainda se lembrava de seu velho amigo dos bancos de escola. Mas descartei a alternativa, muito barulho não faz o meu gênero. Tentei um como vai? com sobriedade, depois vesti meu velho paletó cinza e, forçando um ar de executivo despojado, treinei frases de efeito diante do espelho. Era tudo um horror. Acabei desistindo da idéia por considerá-la absurda.
Quanta pretensão e idiotice! – pensei. Eu, um vigia noturno, na sala do editor do mais importante jornal de São Paulo, para pedir um emprego de revisor. Caso passasse pela portaria, seria convidado a retirar-me antes que vislumbrasse a silhueta da secretária.

(Repost - Editado)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Se entrarmos em diminuição pessoal de nossas habilidades, atitudes e conceitos de vida, tudo se tornará impossível. Não é sendo 'um vigia' que deva ser menosprezado por si mesmo. Quantos celebres em determinadas funções eletivas ou não, intelectuais ou não que são extremamente desprezíveis! Portanto, autoestima e coragem nos projetos da vida!
Abraço.