domingo, 5 de junho de 2016

O Vigia - 3



(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)

Vou ter sempre na memória a tarde de sábado em que o Carlão apareceu no Bar do Guto. Veio de São Paulo trazendo um novo amigo, membro ativíssimo do Movimento dos Cidadãos Conscientes de São Cristóvão e Névis – modesto arquipélago com duas ilhas próximo à América Central. O canalha do Carlão apresentou-me ao gringo como chefe do Departamento de Segurança da Construtora Piu-Piu - uma fantasia que ele encarnou e desempenhou com a seriedade de um diplomata em missão oficial. A platéia primeiro caiu na gargalhada, depois chegou ao delírio quando viu o são-cristovense torcer repetidamente a boca e a ponta do nariz para pronunciar algo como pió-pió. A apoteose aconteceu quando o homem, sério, olhou-me em quase reverência, apontou o dedo para o meu peito e balbuciou:
- Chefe pió-pió?
Esse encontro ridículo e constrangedor despertou minha curiosidade em saber onde fica o tal arquipélago. Por isso apanhei em casa um velho mapa-múndi e iniciei a busca. Perdi-me viajando pelos oceanos de papel, o dedo indicador percorrendo cada país. Passei a levar comigo para o trabalho o tal mapa. Quando não estou participando das reuniões da confraria dos deserdados (as prostitutas e eu), vagueio pelo mundo. Há países espalhados por aí e dos quais a maior parte das pessoas jamais ouviu falar. Tem Belarus, Burkina Fasso, Kiribati, Mianmá, Nauru, Palau e Quirguízia, entre outros. O sujeito que nasceu e nunca saiu de Kiribati, por exemplo, sequer imagina que um solitário vigia noturno, nas noites iguais do interior de Minas, está nesse instante pensando em como será o seu país e como se faz para chegar até lá.
Conversando depois com a Bebel (que estava acompanhada de uma louraça que tem andado sempre com ela), perguntei a ambas se não gostariam de ir comigo qualquer dia desses conhecer Burkina Fasso. Escrachada e irreverente, Bebel respondeu que burkina toda mulher tem, e que a dela estava à minha disposição qualquer noite que eu quisesse. Rimos muito, e acabei concluindo que ser vigia noturno tem lá as suas compensações.
Algum tempo depois o Movimento dos Cidadãos Conscientes de São Cristóvão e Névis enviou ao Carlão, pelo seu presidente, um cartão agradecendo a hospedagem no Brasil e saudando “os animados amigos do bar do Guto”. O homem destacou sua “verdadeira admiração pelo executivo da empresa Piu-Piu” – referência que o Carlão fez questão de assinalar com tinta vermelha.
Pobres de nós, pobre de mim. Podemos até ser amigos, mas estamos longe da alegre animação de quem vive - e bem - num esquecido arquipélago no meio do oceano. Estou convencido de que somos, isto sim, errantes num universo que desconhecemos. São Cristóvão e Névis, com seu Partido dos Cidadãos Conscientes, é tão errante quanto nós, os que proporcionamos a seu honrado cidadão momentos de descontração hilária.

(Repost)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Pensando aqui: - deve estar nascendo um novo livro do Eduardo - "O Vigia" - pois em capítulos, vejo isso. Realmente, o "vigia" se diverte em todos os sentidos físicos ou morais. Apenas, nós, de um PCC (Partido dos Cidadãos Conscientes) nada consciente, pois a sigla hoje está mais para "Partido dos Cidadãos Corruptos" - que nos acostumamos a capítulos inimagináveis na mídia da PGR. Haja condescendência para tamanha desfaçatez!
Abraço.