segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Vigia - 2

(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)
Minhas noites de trabalho têm sido movimentadas. Há um ponto de prostituição em frente à obra, e pela janelinha do portão no tapume eu observo o que se passa, escuto as conversas. Às vezes arrisco palpites sobre a vida – filosofias que não têm a menor importância para quem encara a existência de forma tão pragmática. Eu disse pragmática? Tenho que parar de dizer palavras que não fazem parte do vocabulário de um vigia noturno de obra. Caso contrário, acabo falando como o fiz com a Bebel noite dessas. “Levando a vida tão o quê?”, ela perguntou. “Eu não disse levando, mas encarando. Encarando a vida de maneira tão prática”, respondi.
- Prática?
- É, prática, porque você dá pra quem te paga, sem essa de amor e tal...
- Eu, hein!? Você fala feito um doutor... Muito complicado pro meu gosto.
Pura bobagem, ficar tentando levar esse tipo de papo. Mas confesso que, além de me ajudar a passar o tempo, chega a divertir às vezes. Quando as meninas partem para seus programas, metidas naqueles carrões, fico com minhas idéias e com o perfume dessas mulheres que a noite faz princesas. Volto então à velha solidão da minha vigilância. Chego a pensar que foi a ocupação que me alcançou, fez de mim um prisioneiro em sua misericórdia para com alguém tão nulo na vida – um perdedor.
Agradeço aos céus e ao dono da obra, que foi com a minha cara. O homem tem um ar de quem está cansado de tudo e de todos. O olhar é sonolento. No dia em que me contratou, notei-lhe o esforço para erguer as pálpebras e me observar por cima dos óculos. A expressão de seu rosto sugeria que ele prestava a mim, pó da Criação, um imenso favor. Mais um pouco e eu teria que cair a seus pés de joelhos, beijar-lhe as mãos e começar ali um gesto eterno de gratidão. Recomendou-me apenas não dormir em serviço e deu-me a vaga. Naquele mesmo dia o noticiário da TV anunciou que o desemprego diminuíra 0,2 pontos percentuais em relação à última estatística. Em verdadeiro estado de graça, concordei com tudo: com o patrão, com o noticiário da TV e com as estatísticas.

(Repost)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

O trabalho... nem sempre enobrece ao homem... Escraviza, você não acha? Principalmente se não fazemos algo que nos dê prazer!
Abraço.

Lau Milesi disse...

A verdade é que tudo durante a madrugada faz eco na gente com tanta intensidade. Imagino o turbilhão de pensamentos desse vigia.
Muito bom esse seu conto,me redimindo da classificação de "crônica", q dei ao primeiro,e q adorei tb, Eduardo. D+!!
Volto pra ler os outros.
Um abraço. Bom dia!