terça-feira, 24 de maio de 2016

O Vigia - 1

(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)


O Rio Moldava, de Smetana. Dá para imaginar o rio correndo em direção ao horizonte, como se estivesse se despedindo, indo embora.
Todo mundo vai embora um dia. Ninguém permanece. Dona Gertrudes, pessoa das melhores, morou aqui mais de quarenta anos, era amiga e conselheira de todo o mundo. Numa bela tarde, anunciou que ia embora para São Paulo e foi. Atrás dela seguiram Mônica, meus amigos Carlão e Bosco, a interessantíssima Kaliandra. E o fizeram levados por razões diversas e inadiáveis. Ficamos eu e as máscaras – os manequins, os travestidos de gente que corre de um lado para outro, que simula alegria e que, afinal, também vai embora quando surge um feriadão ou uma sexta-feira quente.
Também eu já fui embora um dia. Vim parar aqui, de onde as pessoas que me ajudam a ver o lado bom da vida estão partindo. Hoje se espalham por todos os cantos desta cidade, com suas conversas em voz alta, seus risos e seus comentários sobre futebol. Trocam promessas de amor eterno, falam mal do governo, fazem planos. Mas acabam indo embora um dia, deixando-me apenas reflexões sobre ausências. 
Talvez por estar ficando sempre, sinto-me inexplicavelmente atraído pelas ferrovias. Olho uma estrada de ferro e posso ouvir a alegria de risos, sentir o ar puro das montanhas que imagino existirem do outro lado. Sou capaz de incorporar a ansiedade que carrega cada mala e que faz pular o coração dentro do peito. As ferrovias significam um sem-fim de sugestões fantásticas de como se libertar desta solidão que nos amarra numa cidade por onde as pessoas passam, assim como passa pelas cidades a ferrovia.
Falei dia desses a alguém sobre essa irresistível atração, mas o que ouvi foi uma gargalhada. Não entendi o porquê daquela reação. Decidi exagerar na suspeita de que talvez meu interlocutor manifestasse sintoma da gravíssima moléstia, de conseqüência fatal, acontecida na Itália em época passada. O sujeito era repentinamente atacado por um riso convulsivo e que o levava a movimentos extravagantes. Alguns doentes rodopiavam enquanto riam. Outros rolavam pelo chão, davam murros no ar. Os jornais de então narram até casos de gente que foi parar debaixo de uma mesa, rolando de rir, durante festas em palácios reais. Fosse qual fosse o sintoma, a vítima ia dar no túmulo em 24 horas. No caso das ferrovias, soube depois que a graça estava na modéstia do meu sonho. “Sonhar assim tem que ser de navio, avião... Trem é província, seu!”
Trem é província. E eu sou um provinciano, metido aqui nesta cidade perdida, vigia noturno de uma obra que quero eterna. Só eu conheço o passado que tratei de sepultar. Vivo só porque sei, na prática, que é melhor assim do que mal acompanhado. Mas estou longe de sentir a solidão dos suicidas.  A minha voa com os pássaros, corre com as águas do rio Moldava, viaja pelos trilhos do trem. É uma solidão sonolenta quando o dia amanhece e vou para casa dormir, discretíssima à tarde, quando tomo minha cerveja com o Flamínio e o Palavrinha no bar do Guto. E novamente inteira quando o dia vai terminando. Não raro a ocasião acaba em roda de papo, na qual alguém desconfia de que sei mais do que faço parecer. Então murmuro alguma desculpa, digo que fiz de tudo um pouco na vida e, quando entregador de jornais, tive a oportunidade de fazer o que mais gostava: ler. Vai daí...


(Repost)

Um comentário:

Lau Milesi disse...

Que crônica mais linda e filosófica :),Eduardo.
"Todo mundo vai embora um dia.Ninguém permanece".Verdade.Chegadas e partidas,essa é a nossa viagem de trem pela vida.
Ao ler "Trem é província",lembrei da Província de Minas Gerais e tb daqueles trens que faziam Rio-BH,que passavam por Juiz de Fora,Matias Barbosa,Barbacena...
Viajei,literalmente.
Um abraço.
Bom restinho de feriado.