segunda-feira, 21 de março de 2016

Superlativos

(Imagem: Igor Morski, do álbum de Michela Pezzoli)


Não nos basta apenas ser mais velozes. Queremos cada vez mais tudo o que nos coloque ao menos um pouco acima em relação ao nosso vizinho. É urgência-urgentíssima ter, como condição indispensável para ser. Ainda que poucos consigam alcançar um nível de “perfeição” que, ilusoriamente, nos coloca frente a frente com a felicidade suprema, seguimos tentando atender aos apelos da máquina que promete nos fazer rápidos, maiores e melhores.
A placa do camelô que vende abacaxis informa que seu produto “é doce no superlativo absoluto sintético” (há quem assegure ter visto gente rodeando a carrocinha do homem, à procura do superlativo absoluto sintético dentro do qual estariam os abacaxis mais saborosos). Na vitrine da loja de eletroeletrônicos, a chamada é para a “hiper-extra-mega-big-grande-giga liquidação”.
Já não nos satisfazemos com pessoas normais, produtos e serviços de qualidade ou iniciativas humanamente compreensíveis. A vaga é para auxiliar administrativo da microempresa, mas a capacitação exigida é quase a de um executivo. Só a remuneração é vergonhosa, aviltante. Alguém dirá que são as regras do mercado, que o mundo é assim mesmo. Não, não é. Nós é que o fazemos assim.
O “excepcional”, o “fantástico” e o “extraordinário” são dispostos diante de nós o tempo todo. O modelo do carro novo é o melhor que há em desempenho, economia, conforto e beleza. O lançamento imobiliário é destaque por qualidades jamais oferecidas. O supermercado é hiper, o computador e o celular ficam ultrapassados antes que lhes dominemos todos os recursos da tecnologia. Estamos já cansados do equilíbrio e da mediania. Bom senso é termo que cheira a velharia, tem jeitão de passado.
Bem poderíamos repensar esse cacoete de grandeza que nos seduz, ao mesmo tempo em que dirige nossos passos à solidão monumental que nos espera, quer sejamos os bons, velozes e melhores ou não. De nada valerá tanto superlativo se a maioria mal sobrevive, encolhida e silenciosa diante de necessidades nunca atendidas.
Hiper, mega, extra, big, grande e giga deveria ser o esforço dos bons, velozes e melhores – sobretudo lideranças – para que uma incontável multidão levasse apenas uma vida normal.
(Repost - Editado)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Pois, então, Eduardo... Nobilíssima seria nossa atitude se, ao superlativo relativo da humanidade, fôssemos nobilíssimos em acatar os de superioridade assim como os de inferioridade, na primordial expressão do viver com dignidade, sem aforismo algum. Mas, a sociedade está contaminada e paupérrima física, moral e intelectual.
Abraço.

Lau Milesi disse...

Excelente,a exemplo de todas as suas crônicas.Parabéns!!
O mundo atual é superlativo das propagandas sobre o abacaxi,aos meios de transporte.Vide a polêmica sobre os táxis "Uber" (sem o trema na palavra em sua origem)
Nada melhor atualmente do que ser transportada por um super,mega,ultra="uber" táxi.:)

Um abraço e um domingo de Páscoa feliz pra vc e sua família,Eduardo.