quinta-feira, 10 de março de 2016

As lágrimas de Malvina


(Imagem: Pinterest/Lena Diniz)

A solidão de Malvina imitava-lhe as feições, a idade, os hábitos, e usava as mesmas roupas em todas as ocasiões e em todos os lugares onde a velha fosse. Só não havia acordo quanto aos sonhos: a mulher acalentava ainda o desejo secreto, incomunicável e reservadíssimo de casar-se. Trocar a companheira de sempre por um homem de carne e osso, capaz de estar ao seu lado. E que, se possível, lhe oferecesse flores.

Não vendo na vida cores além de sua feiura incomum e da rotina de faxineira, Malvina sentia desfalecer-lhe o sonho sempre que a solidão punha diante dela o espelho. Não haveria homem na face da Terra – um só – capaz de amar sua pobreza, sua feiura e sua rara vocação para servir? Verdade que ela não tinha mais nem lágrimas, nem ilusões. Perdera-se no tempo a última vez que caíra em pranto. Só a consciência de sua humildade comandava-lhe a vontade e as mãos, que se punham a serviço de quem necessitasse delas.

Encurvada e tímida, raramente a faxineira ousava erguer a cabeça para olhar alguém nos olhos. Sabia que o mundo lhe dispensava apenas tolerância, pela capacidade de limpar a sujeira dos outros. De resto, cabiam-lhe anonimato e indiferença. Menos por parte de Adolfo, o vendedor da lojinha do seu Guimarães. Em seus monólogos na madrugada, Malvina se esforçava por não crer que ele certa vez lhe dispensara atenção especial.

Dias antes a velha relacionara certo número de sonhos, cujo significado soubera por uma vizinha. Já sonhara com cachecol, caminhão na estrada e balas de canhão – sinais de novidades amorosas no horizonte. Lembrava-se, ainda, de um sonho com gaveta aberta – indício de bons ventos para uma paquera. É verdade que tivera sonhos também com escritor – sinal de embaraços financeiros – e com ervilhas, o que poderia significar complicações de menor importância. Mas...e o repetido sonho com um aspirador de pó novinho, prenunciando sucesso com o sexo oposto? Por isso a faxineira fora sondar o preço de um daqueles aparelhos, cuja posse julgava trazer resultado em dobro: auxiliaria no trabalho e teria mais efeito no caso das conquistas amorosas. Afinal, melhor ter um aspirador de pó do que ficar apenas sonhando com um.

Na loja, Malvina e o velho Adolfo se encontraram. Ele a tomara pelas mãos sob pretexto de ajudá-la a subir um degrauzinho – gesto que Malvina, em princípio, julgou desnecessário. Alto, magro, nariz imenso e óculos de lentes esverdeadas e grossas, o vendedor era fanho e deixava a impressão de estar sempre resfriado.

Apesar de terem logo concluído pela impossibilidade da compra do aspirador, isto não foi o bastante para convencer o também solitário Adolfo. A cada resultado negativo nas contas da cliente, ele inventava e aplicava fórmulas complicadíssimas, na tentativa de satisfazer a encantada Malvina. “Volte amanhã, dona Malvina, que eu vou conversar com seu Guimarães e ver o que a gente pode fazer” – despedia-se da faxineira.

Da loja, os encontros passaram a realizar-se na casa da improvável cliente, onde o vendedor se esforçava com orientações de como Malvina poderia controlar o orçamento. A falta de argumentos técnicos e financeiros de ambas as partes esgotou o fôlego da negociação, encerrada ao final de duas longas semanas. Mas um buquê de singelas flores do campo, enviado por Adolfo à faxineira, marcaria o início de outra conversa – esta, sim, coroada de pleno êxito.

Então Malvina, mais uma vez, chorou.

(Extraído de A Idade da Maçã)

Um comentário:

José Pinto Cardoso disse...

Emocionante. Obrigado Eduardo.